2015 | 02

Em alto e bom som

Débora Fantini

Um grafite — o desenho de uma corrente com um cifrão dourado pendendo da letra U e um boné na cabeça do C — indica a entrada para o Baile Funk do Concórdia, no quarteirão fechado no início da rua Tapira [!], completamente ocupado por jovens em um início de madrugada de sábado de agosto de 2014. Apesar de estarmos em uma festa dedicada a uma música brasileira eletrônica dançante, o público, à exceção de alguns rapazes fazendo o passinho do Romano [!] e de algumas moças que rebolam abraçadas aos seus pares masculinos ou em uma pequena fila só de mulheres, marola pouco. Mas quando os primeiros acordes de um cavaquinho pontuado por um beatbox introduzem a frase “Eu vou chamar as mina do Concórdia”, a animação toma conta da galera, que responde cantando junto, levantando os braços e fazendo um C com as mãos.

[!] A rua Tapira fica na entrada da Vila Tiradentes, popularmente conhecida como Favela da Concórdia e oficialmente localizada no vizinho bairro Renascença, na região Nordeste de Belo Horizonte.

[!] Com movimentos improvisados como imitar um robô e tapar o rosto em sinal de vergonha, o passinho do Romano é um tipo da dança ao som de funk que se populariza por meio de vídeos caseiros veiculados pela internet desde 2008. É disputado em batalhas ou duelos e já foi apresentado em eventos internacionais como o festival Lincoln Center Out of Doors, em Nova York, em julho de 2014.

O “Medley para o Baile do Concórdia”, cantado por MC M5, não é o único funk que, num momento em que o gênero também toca em boates caras, representa os bailes de comunidade que vêm sendo realizados em Belo Horizonte desde o início desta década. “Mega pro Baile do Inestan”, “Novinha da Serra”, “Medley Baile da Esquina”, no bairro Carlos Prates, “Baile do Cruzeirinho”, no Alto Vera Cruz, “Baile da Central part 1”, no Piratininga, “Medley no Atabaque pro Baile do Paizão”, na Pedreira Prado Lopes, são títulos de outras músicas que perfazem apenas parte de um roteiro que conta mais de uma dezena de eventos.

'É O DELANO, CARALHO'
O criador dos arranjos de todos esses funks é Delano, jovem músico belo-horizontino de 17 anos. Ex-puxador de cavaquinho da Escola de Samba Cidade Jardim, agremiação carnavalesca do Morro das Pedras, foi levado a migrar para o funk sob influência de outra festa do bairro onde vive, o Baile da Rua da Pedreira. “Comecei com o funk em janeiro, foi uma brincadeira. Tá tendo um baile ali, vou fazer uma música. Nem escrevi. Pegava o microfone e cantava, com vozes diferenciadas, uma cantada e outra mais grossa. Tem gente que acha que é duas pessoas cantando”, lembra o agora MC, cada dia mais famoso entre os funkeiros. Até mesmo quem não está por dentro do funk já deve ter ouvido o maior sucesso de Delano – “Baile dos Rato”, no Aglomerado Santa Lúcia – tocado em algum carro ou celular [!]. Suas músicas, com letras descritas por ele como “sensuais”, pegaram nos bailes de comunidade por toda Beagá e até no Rio de Janeiro, onde se apresentou no Baile da Cidade Alta, para 20 mil pessoas. No dia da entrevista, faria show no Music Hall, casa de médio porte no bairro Santa Efigênia, dividindo o palco com outros dois MCs independentes que fazem sucesso na atualidade, o carioca Tarapi e o paulista Bin Laden.

[!] A prática de tocar funk nos espaços públicos usando celulares e sons automotivos é abordada no curta-metragem “Esculacho”, do documentarista Marcelo Reis, uma produção belo-horizontina de 2013.

Nas Quadras do Vilarinho, tradicional reduto do funk na capital mineira, Delano cantou no feriado municipal de 15 de agosto de 2014, uma sexta-feira, para 6 mil pessoas, o triplo do público da matinê aos domingos. Frequentadora do baile e ouvinte da Balada Hits, webrádio que toca funk a partir de Belo Horizonte, Stephanie, de 15 anos, engrossa a voz para responder o que anda escutando. “É o Delano, caralho”, repete o bordão lançado pelo músico. Em segundo lugar, cita Gui, MC paulista de funk ostentação da sua idade e já contratado pela Universal, gravadora que também tem em seu casting a veterana Valesca Popozuda.

'ATÉ VIDA LOKA CHORA'
O terceiro colocado do ranking de Stephanie é outro MC mineiro, Caçula, que canta funk consciente. “É um funk que toca a mente, me faz pensar no meu irmão que tá preso”, diz. A amiga Lorrane, também de 15 anos, completa: “Quase choro quando toca no baile, só não choro porque tô no Vilarinho”. Juntas, cantam alto, na plataforma da estação Horto do metrô, a caminho do baile: “Vou mandar um alô pra você que é moleque doido. Tá preso, mas não tá morto. A comunidade conta os dias pra te ver”. Comoção multiplicada por centenas de vozes cantando esses mesmos versos já havia sido presenciada pela reportagem no Baile do Concórdia, quando o DJ tocou “Segunda Chance”.

Gravado em 2012, o funk tem letra de Jefinho, autor também da mais recente música cantada por Caçula, “Amor de Mãe”, lançada em abril de 2014 e recebida com a seguinte manchete do portal G1: “Funkeiro inova. Mães de filhos envolvidos no crime é o tema”. A letra surgiu de uma foto publicada no Facebook. “Era um bandido morto no colo da mãe. Pensei: o Caçula sempre falou de crime, entre aspas, acho que agora ele tem que falar da mãe do bandido, que ele vai quebrar a cara com outras mulheres, e só ela vai estar com ele, nas horas boas e ruins”, conta o também MC, que começou a cantar e compor funk aos 17 anos e hoje, aos 32, define sua música como uma “versão mais pop e dançante” do melody - “Pegada Boa”, de sua lavra, foi recentemente regravada com Buchecha, um dos ícones do estilo.

'BOMBA EXPLODE NA CABEÇA'
Em meados da década passada, um fã de Caçula e Jefinho, então aspirante a MC, decidiu apostar todo o dinheiro de um acerto trabalhista na gravação de suas primeiras músicas com um dos principais produtores musicais de funk em Belo Horizonte, Joseph — que em 2014 completou 40 anos de profissão e é ex-integrante do grupo União Rap Funk, representante belo-horizontino do gênero em seus primórdios, com faixas incluídas em coletâneas do DJ Marlboro, como a “Melô da Paula”, gravada no álbum Funk Brasil 3, de 1991. Com “Bomba Explode na Cabeça”, MC Dodô chegava nesse movimento em 2007. O impacto fez-se sentir nas rádios comunitárias locais e, posteriormente, na internet, fazendo Belo Horizonte ser nacionalmente associada ao funk consciente.

A introdução da música foi inspirada numa batida de "Say It Right", do produtor norte-americano Timbaland e gravada pela cantora canadense Nelly Furtado. “Peguei aquilo e fiz pum, pá, pum, pá, pum, pá, pum. Uma batida que é tão pop, que a galera gosta tanto nos bailes, mas que não toca no funk. Era a maneira de eu colocar um sintetizador. ‘Bomba Explode’ é um funk consciente com arranjo, tanto é que o pessoal não acreditava nessa música, nem o próprio Dodô. Sintetizador de música eletrônica no funk consciente? Mas eu tinha consciência que eu tava pegando um negócio de dance music e colocando no funk. Porque a batida do Timbaland era o funk do Bambaataa. Apaixonei com aquele negócio. E o Dodô com aquela sinceridade dele, muito autêntico. Muita gente não entendeu nada. Quando fala ‘bomba explode na cabeça’, muita gente fala que é apologia. Num é nada disso, é um trauma de consciência”, interpreta Joseph.

Dodô afirma que a música, como todos os seus funks, é um desabafo. “Quando eu gravei ‘Falam que é nós’ [2008], até a minha mãe falou: ‘cê não tem medo de fazer isso, não? Num grava essa música, não, porque essa música é muito política’. Mas ela vai se encaixar na vida de quem der brecha. Fala de políticos corruptos, de gente que está no poder pra tirar do povo, não fala que fulano é ladrão. Fala: ‘Estamos cansados de ver miséria na nossa comunidade. 157 [menção ao artigo do Código Penal sobre roubo] é nós, falam que é nós’. (...) Ficava indignado com o pessoal que tava no poder, e o funk é pra isso, falar as coisas que a gente pensa. Qual é a nossa voz? Nossa voz hoje é o funk. Revolução da música. Quem sabe entra alguma coisa de boa na mente das pessoas e elas começam a mudar e tomar atitude pra outro lado”. O músico de 31 anos cresceu no Palmital, em Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte, e desde 2000 mora no Alto Vera Cruz, na região leste da capital mineira — sua avó Efigênia, cantora e violonista, é integrante do grupo artístico local Meninas de Sinhá, de cantigas de roda e cirandas.

Passados quase dez anos desde o lançamento, “Bomba Explode na Cabeça” ainda repercute. É a trilha sonora da cena final do filme "Branco Sai Preto Fica" (2014), do diretor Adirley Queirós, de Ceilândia (DF), vencedor do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2014. Apesar disso, Dodô considera que o consciente está em baixa entre os próprios funkeiros e faz planos de deixar o funk para seguir carreira em outro gênero musical. Dois de seus shows recentes foram no 46º Festival de Inverno da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em Belo Horizonte, e numa galeria de arte contemporânea na capital paulista, na abertura da exposição “Che Cherera”, do ex-vizinho Paulo Nazareth.

VISUALIZAÇÕES
Enquanto Dodô vira cult entre intelectuais, outros MCs do funk consciente belo-horizontino buscam diversificar sua música. Yuri, que teve a participação de Dodô em um de seus primeiros sucessos, “O Crime Não Presta”, de 2010, agora está gravando músicas mais “dançantes” como “Reis e Rainhas”, lançada em 2014. “Sem pornografia, sem falar mal de ninguém. Não posso perder meu público, tenho que atualizar as coisas”, fala o músico de 14 anos, MC há quatro.

Yuri também precisa mostrar para seu público que não é mais uma criança, e um meio para isso foi o clipe de “Reis e Rainhas”, no qual aparece de topete, quando não está de boné, com a camisa desabotoada e abraçado a mulheres. “O clipe vendeu minha imagem. Porque até um pouco atrás, ia anunciar Yuri BH, eles pensavam que ainda era um molequinho de cabelo grande, corpo mais gordinho e com bonezinho assim [enterrado na cabeça]. Eu chegava nos bailes, a galera ficava meio confusa, via que era eu mesmo, mas ficava surpresa. E a imagem divulga. Nesse clipe, com essas 300 mil visualizações, a galera já me reconhece”, afirma. Empresariado pelo pai, Alex, ele também investe em divulgação por Facebook e Instagram.

Com cenas filmadas no terceiro andar do Mercado Novo, no centro de Belo Horizonte, e na orla da lagoa da Pampulha, o clipe foi dirigido pelo belo-horizontino P.drão, de 31 anos. Rapper, ele entrou no ramo audiovisual para fazer vídeos do gênero, mas acabou se tornando um dos primeiros produtores de clipes de funk na era da internet, antes mesmo de o “ostentação” impulsionar essa produção, com “Rainha”, música de MC Romeu, “um grande contador de histórias” do funk consciente, nas palavras de DJ Joseph.

O clipe é de 2008 e até 2013 havia contabilizado 4 milhões de visualizações, mas foi tirado do ar devido a uma denúncia. “A qualidade máxima do YouTube na época era de 360p e já dava pra colocar no Orkut, MSN, mandar por e-mail. Eu não tive muita dificuldade em fazer porque ‘Rainha’ é um funk consciente, e como eu vim do rap, do movimento hip hop, que na época eram músicas de protesto, na mesma pegada do funk consciente, então já deu pra me identificar. Foram três dias de gravação. A gente arrumou a logística dele juntos, o empresário dele arrumou bastante coisa. A gente fez o clipe, lançou, e eu nem esperava o sucesso que foi”.

Hoje um produtor de clipes para MCs de outros estados, assim como o também mineiro Tom, de Contagem, P.drão, no dia da entrevista, acabava de lançar o vídeo do funk “Malandra de Fora”, do MC carioca Menorzão. Algumas cenas foram filmadas numa pequena boate na Vila Fazendinha, região leste de Belo Horizonte, que é o epicentro do Baile do Serrão.


SEM LOMBRAR O BAILE
No Serrão, o público se espalha pela principal rua da vila, uma ladeira. Por isso, o sonho do organizador, DJ Marquinho, é fazer o evento no campo de futebol ou na quadra da vila, equipamentos municipais. “O campo só é usado pra peneirada [seleção de jogadores de futebol]. Fica aí [na parte baixa e plana da vila] do jeito que tá, enquanto a quadra do lado todo dia tem jogo. Fico olhando pra esse trem, o meu sonho é fazer um baile aí dentro. Eu ia botar um tabladão e jogar o som pra cá, pra não atrapalhar o hospital [da Baleia]. E tem a quadra em cima, que também sou doido pra fazer baile lá, que aí ia ficar bem pegada de baile de favela mesmo, mais organizado”.

Antes de ter o próprio baile, Marquinho, de 25 anos, foi DJ do MC Caçula por quase uma década. Hoje toca também em boates, casas de show, resenhas [!] e, principalmente, bailes de outras comunidades. No Baile do Concórdia, entre uma música e outra, pega o microfone e repete: “Disciplina na hora de ir embora pra não lombrar o baile”. Apesar disso, uma confusão se forma ao seu lado. No controle da situação, repete o recado pela última vez e desliga o som em seguida. O baile rapidamente esvazia, mas, poucos minutos depois, a música recomeça.

[!] Resenhas são festas organizadas em casas ou sítios em sistema open bar, em que se paga um determinado valor — R$40, para homens, e R$10, para mulheres, em média — e pode-se beber à vontade. No caso das resenhas de funk, as atrações costumam ser as mesmas de uma casa de shows ou baile, como DJs, MCs e dançarinos.

Foi esse “poder de comando do DJ” que atraiu Ronnie Peterson para a profissão quando ele ainda tinha 12 anos. “Na minha época, quando comecei a frequentar [baile funk], o DJ sabia a música que ele tocava quando queria que desse briga de corredor ou que o pessoal saísse beijando na boca ou pra fazer a galera brincar”. Hoje, aos 31, ele é produtor geral do baile funk das Quadras do Vilarinho e, naquele penúltimo domingo de agosto, não precisou conter nenhuma briga.

Os frequentadores do baile do Vilarinho que vão embora de metrô têm a passagem paga pela organização do evento, sob a condição de passarem por uma revista e viajarem escoltados por seguranças. No trajeto de volta, lembro-me das palavras que ouvi de Stephanie na ida – “Gosto de funk porque deixa a gente animada” – e já a vejo ali no domingo seguinte, a caminho do baile novamente, cantando uma música com a amiga Lorrane em alto e bom som, desafiando olhares de repreensão e a força da repressão para curtir a diversão que o funk proporciona a diferentes gerações de jovens brasileiros há trinta anos.