2015 | 02

‚ÄúDomingo eu vou ao Mineir√£o‚ÄĚ

Pedro Kalil

ENTREVISTA | Marcelino Rodrigues

Marimbondo: Os times de futebol t√™m em comum o grito de suas torcidas, que cantam m√ļsicas seja para combater o advers√°rio, seja para apoiar o time. Por que voc√™ acha que essa maneira de torcer se tornou a predominante no mundo? Poder√≠amos dizer, segundo a l√≥gica de Nelson Rodrigues, que o futebol √© uma trag√©dia e que a torcida faria, ent√£o, o ‚Äúpapel de coro‚ÄĚ?

Marcelino Rodrigues: Acho que um dos motivos pelos quais as torcidas cantam nos est√°dios √© o fato de que o futebol √© um esporte popular. Os cantos das torcidas, com seus desafios, goza√ß√Ķes e xingamentos aos advers√°rios, s√£o uma forma de manifesta√ß√£o mais livre do p√ļblico, sem os constrangimentos que regulam o comportamento de grupos mais elitizados. Na hist√≥ria do futebol no Brasil isso √© muito claro: na d√©cada de 1910, que eu estudei um pouco, n√≥s vemos claramente as cr√≠ticas severas dos cronistas √† falta de fair play, ao comportamento turbulento e mal educado dos torcedores mais pobres, que j√° come√ßavam a invadir os est√°dios.

O curioso √© que muitas vezes os protagonistas dos chamados ‚Äúsururus‚ÄĚ eram justamente os torcedores e jogadores das elites, metidos a refinados e civilizados, embora as cr√≠ticas quase sempre fossem endere√ßadas aos mais pobres.

Na compara√ß√£o do futebol com o teatro, que o Nelson Rodrigues tanto gostava de fazer, o torcedor faz, sim, o papel do coro, desse personagem coletivo que representa a vis√£o do p√ļblico em rela√ß√£o ao que se passa na cena. Mas, num ponto importante, o futebol √© bem diferente das trag√©dias cl√°ssicas, em que o destino se impunha e o final das hist√≥rias, que vinham dos ciclos m√≠ticos, era conhecido previamente pelo p√ļblico. O futebol √© um jogo, ele n√£o tem um final preestabelecido, o destino est√° permanentemente em jogo sem que se saiba de antem√£o quem ser√£o os vencedores e os perdedores. Por isso, o comportamento da torcida √© de combate, a torcida √© a camisa 12, pode e quer influenciar o resultado. Os cantos dos torcedores, ent√£o, s√£o uma arma no combate simb√≥lico que acontece no est√°dio. Uma arma que, inclusive, pode se voltar contra o pr√≥prio time.

M: √Č certo tamb√©m que, ao menos no Brasil, as m√ļsicas em um est√°dio de futebol apresentam uma variedade enorme de possibilidades: m√ļsicas ofensivas (‚Äú[...]cruzeirense [ou atleticano] chora, pega sua bandeira enfia no cu e vai embora‚ÄĚ), m√ļsicas bonitas que exaltam a paix√£o (‚ÄúHoje larguei tudo pra te ver, fa√ßo isso por amor, dou a vida por voc√™!‚ÄĚ), m√ļsicas motivacionais (‚ÄúVamos, vamos cruzeiro, vamos, vamos a ganhar‚ÄĚ), par√≥dias dos cantos das torcidas advers√°rias (‚ÄúVamos, vamos, cruzeiro, bicharada a cantar‚ÄĚ), m√ļsicas que individualizam a grandeza de certos jogadores (‚Äúputa que pariu, √© o melhor goleiro do Brasil‚ÄĚ), etc. Inclusive, em alguns desses cantos, percebemos um sem n√ļmeros de termos homof√≥bicos, racistas, classistas, como √© evidente nas m√ļsicas que ficaram imortalizadas desde a Copa de 2014 com a torcida da Argentina e que foram recriadas tanto pela torcida do Atl√©tico quanto pela do Cruzeiro (ver letras abaixo). Nesse sentido, em que medida as m√ļsicas da torcida de futebol, especialmente no Brasil, ajudam a simbolizar e a significar um jogo em particular e o futebol como um todo?

MR: O Carlos Drummond de Andrade tem um poema muito legal (‚ÄúSolu√ß√£o‚ÄĚ, est√° no livro Quando √© dia de futebol), que diz que o futebol √© um ‚Äúesporte verboso‚ÄĚ, ou seja, um esporte que n√£o acontece s√≥ no campo, mas que √© tamb√©m uma batalha verbal entre os torcedores. Da√≠ o sucesso dos cronistas, narradores e comentaristas que claramente assumem uma posi√ß√£o e se entregam sem disfarces √† pol√™mica e √† parcialidade, como era o caso do Nelson Rodrigues. Como torcedores, eles tamb√©m jogam o jogo, por isso parecem mais confi√°veis aos que compartilham com eles a mesma paix√£o club√≠stica.

Como espet√°culo, o futebol √© o ponto de partida de uma incr√≠vel teia de discursos que interpretam constantemente o jogo e atribuem sentidos locais e contextualizados aos acontecimentos, personagens e institui√ß√Ķes do mundo esportivo. Os cantos das torcidas nos est√°dios, naturalmente, s√£o uma parte importante dessa teia de discursos, pois articulam e canalizam, de uma maneira direta, os sentimentos de uma parte fundamental do espet√°culo, que √© o p√ļblico. Isso tudo em tempo real e diante dos olhos e ouvidos atentos da m√≠dia e daquela outra parte do p√ļblico que acompanha o espet√°culo pelo r√°dio ou pela TV. Novamente, a compara√ß√£o com o teatro √© sugestiva, pois a torcida acaba fazendo parte do espet√°culo, como o coro, e seus cantos viram assunto dos comentaristas e dos outros torcedores.

Uma coisa interessante, nesse sentido, √© que os cantos das torcidas s√£o atravessados por uma infinidade de informa√ß√Ķes culturais diferentes que conectam os torcedores e ajudam a construir o sentimento de coes√£o entre eles. Mas, ao mesmo tempo, criam linhas de fuga que amplificam os sentidos dos signos esportivos. Penso, por exemplo, no ‚Äúaqui tem um bando de loucos‚ÄĚ, da torcida do Corinthians, no ‚Äúlevantou poeira‚ÄĚ, que v√°rias torcidas cantaram, algum tempo atr√°s, e no samba ‚ÄúVou festejar‚ÄĚ, da Beth Carvalho, que durante muito tempo embalou a torcida do Atl√©tico. O sentido, nesses cantos, n√£o √© uma coisa f√°cil de pegar e definir com clareza, n√£o √© simplesmente uma afirma√ß√£o tribal da unidade do grupo, mas sinaliza para algo que escapa a uma vis√£o t√£o simplista. Como multid√£o, a torcida √© sempre marcada pela heterogeneidade, pela multiplicidade, pela apropria√ß√£o plural e inst√°vel dos signos esportivos.

 

Canto da torcida cruzeirense

Frangas, me diz como se sente.
Em ser segundo nas Gerais.
Mesmo que se passem os anos.
N√£o vou me esquecer jamais!

Você jogou a série B
De 6x1 te vi perder
Camisa rosa nunca vai sair d'ocê!

O Cruzeirão você vai ver.
O Tetra vamos vencer.
De Marrocos ainda deve a CVC!

 

Canto da torcida atleticana

Maria, eu sei que você treme
Sempre que o Galo vai jogar
Eu vi Riascos ir pra bola
E o Victor de bico isolar

9 x 2 eu j√° ganhei,
Vi o gol do Vanderlei
E o F√°bio l√° de costas a chorar

Do Veron eu vou lembrar,
o Mineir√£o se fez calar
E o Galo para sempre eu vou amar.

M: Que poss√≠vel semelhan√ßa existe entre essa constitui√ß√£o/constru√ß√£o de identidade da torcida, por meio do hino do clube e de suas m√ļsicas, com a constitui√ß√£o/constru√ß√£o de identidade de um pa√≠s ou estado-na√ß√£o?

MR: Toda a constru√ß√£o discursiva em torno das tradi√ß√Ķes e das identidades club√≠sticas √© mesmo muito semelhante ao que acontece com as na√ß√Ķes. Num primeiro plano, a gente pode falar dos s√≠mbolos dos clubes e das na√ß√Ķes; n√£o s√≥ os hinos, mas as bandeiras, os bras√Ķes e escudos, as cores... E, por tr√°s disso, a mitifica√ß√£o do passado, a cria√ß√£o de uma continuidade no tempo e de uma solidariedade horizontal entre os membros de uma na√ß√£o ou de uma torcida, a linguagem metaf√≥rica que transforma muitos em um. O canto do hino em un√≠ssono pela torcida e os abra√ßos fraternos entre estranhos na hora do gol materializam de maneira exemplar esse car√°ter de ‚Äúcomunidade imaginada‚ÄĚ (express√£o usada pelos te√≥ricos para se referir √† ideia da na√ß√£o como uma constru√ß√£o cultural) das torcidas de futebol.

Mas, novamente aí, é necessário enxergar as diferenças. A nação surge como uma forma de dar legitimidade ao estado, pois é do povo que, na ideologia republicana, emana o poder dos governantes. No mundo do futebol, especialmente no Brasil, no entanto, as coisas não funcionam bem assim. Os clubes são governados por verdadeiras oligarquias, que se perpetuam no poder sem nenhum mecanismo de legitimação desse poder como uma representação da vontade dos torcedores. Nesse sentido, o simbolismo do futebol acaba pondo às claras uma característica atávica da sociedade brasileira, a despeito da fachada de estado democrático de direito que existe hoje.

De qualquer modo, a exist√™ncia dessas pequenas na√ß√Ķes, que s√£o os clubes de futebol, √© uma evid√™ncia das fronteiras internas, das diferen√ßas e dos conflitos que atravessam a comunidade nacional. E tamb√©m dessa necessidade que os seres humanos t√™m de se unir e se dividir, de construir identidades e jogar com alteridades; necessidade que estrutura a vida cultural como um todo. O outro que mais me interpela e me desafia √©, muitas vezes, aquele que est√° mais pr√≥ximo, como se v√™ na rivalidade com os argentinos, que viram piada em comerciais de TV, e nas v√°rias rivalidades locais que dividem as grandes metr√≥poles brasileiras e se atualizam em acirrados duelos verbais nos est√°dios e fora deles.

M: Em um cl√°ssico de futebol ‚Äď um dos pontos altos dos campeonatos ‚Äď, a disputa se d√° no campo e nas arquibancadas, onde h√° tamb√©m uma ‚Äúguerra‚ÄĚ verbal conduzida pelas torcidas advers√°rias. Ali√°s, o pr√≥prio termo ‚Äúguerra‚ÄĚ √© usado por elas (‚Äútime de guerreiros‚ÄĚ, ‚Äúagora √© guerra!‚ÄĚ, etc.). H√° ali ‚Äď como entre ex√©rcitos ‚Äď tamb√©m uma disputa por territ√≥rios? Que territ√≥rios se almejam conquistar por meios dessas m√ļsicas de futebol?

MR: A liga√ß√£o do futebol com a guerra realmente existe e n√£o √© apenas metaf√≥rica. O futebol moderno surgiu como sublima√ß√£o da guerra. Isso fica muito claro nos jogos-rituais que antecederam o futebol moderno, como o harpastum, o soule e o calcio. Os jogos eram grandes batalhas campais entre os habitantes de diferentes aldeias, disputadas com ‚Äúbolas‚ÄĚ feitas de v√≠sceras animais, que serviam para descarregar as energias e os conflitos latentes entre essas comunidades, evitando assim o confronto direto e mais destrutivo. Depois as disputas foram reduzidas a um grupo menor de jogadores, com as outras pessoas passando para o papel de torcedores. Por isso, acho que uma dose de viol√™ncia √© inerente ao futebol e n√£o pode ser tirada dele. Discordo daqueles que dizem que a viol√™ncia do futebol n√£o vem dele, mas das condi√ß√Ķes sociais do p√ļblico, etc. Sem um pouco dessa viol√™ncia, que √© constitutiva das rela√ß√Ķes sociais, o jogo n√£o funciona. Mas √© claro que estou falando da viol√™ncia simb√≥lica, pois o sentido do jogo √© justamente a passagem do conflito para o campo simb√≥lico.

Consequentemente, o canto da torcida √©, sim, um canto territorial. Cantar mais alto e com mais emo√ß√£o e energia que a torcida advers√°ria, parodiar a m√ļsica do rival, jactar-se das pr√≥prias qualidades e conquistas, humilhar e ofender o oponente... S√£o armas do torcedor na disputa pelo territ√≥rio. Pra pensar nessa quest√£o, √© bem interessante a ideia do ritornelo, explorada por Deleuze e Guattari em Mil plat√īs [livro escrito pelos dois fil√≥sofos franceses]. O canto territorial dos p√°ssaros, uma crian√ßa que canta no escuro e algu√©m que canta enquanto arruma a casa buscam criar um eixo e demarcar um territ√≥rio (at√© onde a voz alcan√ßa). Mas quem est√° dentro pode ir pra fora, e o fora, o outro, em algum momento, pode estar dentro, violando as fronteiras do territ√≥rio e tra√ßando linhas de fuga. Nas rivalidades locais, que op√Ķem torcedores que moram lado a lado, na mesma cidade, na mesma rua ou na mesma casa, algumas dessas linhas de fuga talvez possam ser encontradas na rela√ß√£o, sempre denegada, de depend√™ncia entre os rivais. Uma rela√ß√£o que tende a ser especular, em que um lado sente inveja e ci√ļmes do outro, a quem √© sempre necess√°rio negar e afirmar ao mesmo tempo.

M: Quase todos os times do pa√≠s cantam, com suas varia√ß√Ķes, ‚ÄúDomingo, eu vou no Mineir√£o, vou torcer pro time que sou f√£‚ÄĚ. Qual √© a rela√ß√£o entre a m√ļsica popular e as cantadas pelas torcidas? H√° diferen√ßas substanciais entre a apropria√ß√£o que torcidas de um futebol mais antigo faziam e a que √© feita hoje?

MR: Como uma cria√ß√£o espont√Ęnea dos torcedores, gerada em momentos de euforia coletiva, os cantos da torcida s√£o muito perme√°veis √†s informa√ß√Ķes que v√™m da cultura no seu entorno. Al√©m disso, eles s√£o ef√™meros, eles mudam o tempo todo, novos cantos s√£o criados e outros caem no esquecimento. A can√ß√£o popular √© com certeza uma das fontes que alimentam permanentemente a imagina√ß√£o musical dos torcedores: o samba, o funk, o ax√©. Por isso, os cantos das torcidas s√£o atravessados por tra√ßos e valores daquele per√≠odo, mais ou menos fugaz, em que eles existem. Para o p√ļblico de hoje, os cantos mais antigos talvez soem meio ing√™nuos, muito contidos moralmente ou mesmo sem sentido. Mas acho que o palavr√£o, o xingamento e a goza√ß√£o sempre estiveram presentes, pelo menos desde o momento em que o futebol se popularizou.

Com a elitiza√ß√£o dos est√°dios, que vem acompanhando o processo mais recente de apropria√ß√£o do futebol pelos interesses do capitalismo global, e que se acentuou no Brasil com a Copa do Mundo, fica a d√ļvida se continuar√° sendo assim. Durante a Copa, a Fifa tentou impor aos torcedores uma s√©rie de regras de comportamento que acabaram sendo mais ou menos dribladas, mesmo com o p√ļblico mais rico, que conseguiu comprar e pagar os dif√≠ceis ingressos para os jogos. Nas manifesta√ß√Ķes de junho de 2013, muita gente identificou um comportamento l√ļdico e festivo, parecido com o dos torcedores nos est√°dios. Por outro lado, acho dif√≠cil imaginar que o futebol brasileiro possa sustentar por muito tempo um padr√£o muito alto de pre√ßos de ingressos e presen√ßa nos est√°dios. De alguma forma, o futuro dos cantos dos torcedores est√° ligado a esse processo mais amplo, a essa encruzilhada vivida hoje pelo futebol, entre seu passado popular e sua assimila√ß√£o por uma l√≥gica de funcionamento determinada pelo marketing esportivo.