2015 | 02

Toque de ancestralidade

Júlia Moysés // colaborou Luísa Lóes

Do lado de fora da capela, a guarda de moçambique d’Os Ciriacos [!] bate caixas e gungas, canta e dança, anunciando a abertura do reinado. Seu Antônio Ciriaco, capitão-mor da irmandade, mestre de reinado e requisitado mestre tamborzeiro, senta-se próximo ao altar segurando um tambor azulado entre as mãos, similar aos que os caixeiros carregam:

“Primeiro, você corta o corpo da caixa, depois você corta uma parte pra fechar aqui [aponta a lateral], chamada costela. Tem duas partes que você corta, põe por dentro, que chamam curua. Depois, vem o cipó que você costura o couro. Tá vendo? O cipó é que dá sustentação. E aí vem o arco [bate no arco três vezes com a mão fechada] Cipó, arco, costela – três – e a madeira que fecha o tambor – quatro. Aí vem a pele, que são duas em um tambor, vem a corda – três – vem o material para os ganchos – quatro. Quatro com quatro? Oito. São oito partes o tambor do reinado, que o povo fala congado, mas pra gente aqui é reinado. Após as orações, você ruge os tambores para que as forças superiores se liguem a todos nós que estamos ali. Sem os tambores, não tem como”.

[!] A Irmandade Nossa Senhora do Rosário Os Ciriacos foi fundada em 1954. Sua sede fica no bairro Novo Progresso, em Contagem.

Um congadeiro entra na capela, faz o sinal da cruz diante dos santos, benze-se na bandeira da irmandade, inclina o corpo para benzer-se também em três tambores que estão ao pé do altar. Toca em cada um com a ponta dos dedos, beija a mão e a leva à testa em reverência. Diferente do tambor que Seu Antônio segura, estes são de madeira maciça, talhada, mais finos, de alturas diversas, com uma base ainda mais estreita que o corpo, e de couro mais espesso. Santana, Santaninha e Chama são tambores do candombe e exercem papel central no mito fundador da fé em Nossa Senhora do Rosário, sendo representados também pelas caixas – tradicionalmente três – presentes nas guardas de moçambique. Tocados pelos pretos velhos candombeiros que retiraram a santa do mar, só batem em ocasiões especiais. “Não bate em qualquer época, a gente não deixa qualquer pessoa entrar, a gente não deixa filmar se não soubermos para onde é. Bate quando vai fazer uma coroação, pra firmar as coroas, quando vai ter uma festa, levantar a bandeira. A gente firma a bandeira com o candombe. Tem candombe que é mais profano, mais bizarria, mais batuque mesmo. Aquele que nós temos aqui é um candombe sagrado, né?”, explica Dirceu Ferreira, capitão regente da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Justinópolis [!] e quem presenteou Seu Antônio com o candombe por ocasião dos 60 anos d’Os Ciriacos.

[!] Fundada em 1889, sua sede fica no centro de Justinópolis, em Ribeirão das Neves.

O encontro do sagrado e do profano mostra como a cultura afro-brasileira – assim como em outros lugares do país – conformou-se em Belo Horizonte, em origens que remontam ao antigo Curral del Rei, onde já eram práticados os festejos em louvor a Nossa Senhora do Rosário. “No Brasil, que é nossa herança africana, o sagrado se mistura com o não sagrado de diversas maneiras. Porque na África, em vários lugares da África, tudo é sagrado. Não existe essa diferença, como no Ocidente: aqui é sagrado, aqui é profano. O país herdou muito isso. O maracatu é assim, o tambor de crioula, o jongo...”, explica o percussionista, Bill Lucas.

Constituídas às margens da história oficial da cidade, a religiosidade e demais manifestações culturais afro-brasileiras sempre estiveram presentes em Belo Horizonte, configurando resistência política e cultural ao projeto racista e segregacionista colocado em curso desde o planejamento da nova capital. As irmandades do Rosário, os terreiros de Umbanda e Candomblé, as escolas de samba e, mais recentemente, as rodas de samba e os blocos percussivos – ao lado do soul, do funk, do hip hop e de diversas outras manifestações e organizações comunitárias – são parte indissociável tanto da transformação de territórios permitidos quanto da ocupação de espaços negados. E os tambores são elementos indissociáveis dessas manifestações. “O tambor, como símbolo, estratégia e som traduz o ethos, os valores e a visão de mundo das culturas negro-africanas.

Este som que repercute através do tambor invoca – e também nos convoca – para viver a alegria e para lutar nos quilombos contemporâneos de Belo Horizonte ou nas comunidades invisibilizadas e marginalizadas culturalmente pelo país afora, a fim de perpetuar os valores e a dignidade desta tradição”, diz o filósofo e historiador Marcos Antônio Cardoso, para quem as comunidades culturais e espirituais afro-brasileiras “emergem como espaços litúrgicos, culturais e de organização social e política que reterritorializam o continuum africano na cidade”.

De acordo com o pesquisador e percussionista Djalma Côrrea, a força simbólica e sonora do tambor emana também de nossas mais profundas e arcaicas memórias afetivas. Ele defende que o tambor é uma forma de transcrever e exteriorizar nossas primeiras memórias rítmicas – o pulsar do coração ouvido do ventre da mãe – e, por isso, ativa uma espécie de inconsciente coletivo. Djalma percorreu o país ao longo de mais de 30 anos a fim de documentar em som e imagem a diversidade da percussão brasileira.

SÃO TAMBORES, OS TAMBORES
“Mas o que você está considerando como tambor? Um surdo você considera tambor? Agogô seria tambor? Um tamborim seria tambor? Tudo [os instrumentos percussivos] é tambor. Realmente, eu não chamo de tambor instrumento que você sacode, mas o resto... quase tudo você pode chamar de tambor”, provoca Bill Lucas.

Foi para diferenciar o tambor específico do congado de todos os outros instrumentos que recebem esse nome que o multiinstrumentista e congadeiro Maurício Tizumba cunhou o termo tambor mineiro. “Ele tem uma forma que é dele mesmo, uma forma banto, uma forma de ngoma, tem uma amarração diferente, tem uma sonoridade macia. Essa caixa é característica de Minas Gerais”, explica.

Feito no candomblé da nação Angola, Tizumba é também xicarangoma no Terreiro da Roça Branca, no bairro Floramar, região norte da cidade. “Todo lugar que tem manifestação de matriz africana são sempre três tambores. Ele [o tambor] tem o poder de um orixá, esse poder mesmo de ser santo, de ser sagrado”, conta ele. Os atabaques sagrados dos terreiros de candomblé – Rum (o maior, que comanda o toque), Rumpi e Le – são saudados no início das sessões. Os iniciados batem o dedo na madeira e passam à cabeça. Os não feitos cumprimentam o tambor encostando no chão, pois não têm permissão de tocar no atabaque. Sem os tambores, não existe ritual.

Já na umbanda, as sessões podem ser acompanhadas por palmas ritmadas. Praticada em Belo Horizonte desde os anos 1930 (enquanto o Candomblé chegou à capital cerca de 30 anos depois), a religião, assim como no restante do Brasil, precisava ser discreta. Na maior parte das vezes, as sessões eram feitas nas casas das pessoas de forma alternada para evitar problemas com a vizinhança. “Muitos terreiros não têm atabaque por causa da repressão. O ritual tinha que ser escondido e por isso, até hoje, muitas sessões são apenas com palmas”, conta a produtora cultural Luana Gonçalves, frequentadora do Centro Espírita União Fraternal de Umbanda, em Contagem. O terreiro é um dos poucos onde o ogã responsável pelo atabaque é uma mulher [!]. “Falam que mulher não pode ser tabaqueira. Essa imposição [uma mulher no atabaque] também é uma bandeira nossa, feminista”, diz Luana, para quem o atabaque é um instrumento de comunhão, e a firmeza da sessão vem, justamente, do encontro entre o instrumento, o tocador (ogã) e a voz (os pontos cantados).

[!] A tabaqueira mencionada preferiu não conceder entrevista.

Em Registros da fé afro-brasileira na capital de Minas, a pesquisadora Mariana de Morais revela que, em Belo Horizonte, os atabaques foram introduzidos nas sessões de umbanda no final da década de 1940. O feito é atribuído a Ildeu Amaro da Silva, médium conhecido como Odorico, que frequentava um terreiro no então Morro do Pau Comeu, atualmente, Vila Nossa Senhora de Fátima, no Aglomerado da Serra, região centro-sul da cidade.

DE NOVO, O TRÊS
Ritmo, dança e movimento. São com esses elementos que Bill Lucas sintetiza a função do tambor na música. “Em várias regiões da África, não existe distinção entre música e dança”, conta ele. Tal síntese vai ao encontro dos princípios do samba de roda explicitados pelo idealizador do Samba da Meia Noite [!], Jefferson Gomes. “Voz, corpo e tambor. A voz é o veículo das mensagens que você quer passar, é por meio dela que você entoa as suas lamentações, fala sobre suas raízes e seu cotidiano. O tambor é o mensageiro; o responsável por dar o ritmo, por fazer com que o corpo se movimente; e o corpo é a própria resposta ao tambor, a expressão do ritmo em cada pessoa de acordo com suas origens, sua vivência”, explica ele. Seguindo a tradição do Recôncavo Baiano, no Samba da Meia Noite são as sambadeiras que abrem a roda. Uma de cada vez, cumprimentam o tambor, fazem um giro pelo grupo e, dando umbigadas umas nas outras, chamam as parceiras para sambar.

[!] O Samba da Meia Noite ocupa, desde 2012, sexta-feira sim, sexta-feira não, o Viaduto Santa Tereza, no hipercentro da cidade.


NAÇÃO TAMBOR
Para a percussionista Daniela Ramos – responsável por trazer para Belo Horizonte o tambor de crioula e, desde 2009, à frente do grupo de maracatu Trovão das Minas –, em Minas Gerais, ao contrário da dimensão pública de outros lugares do país, os tambores tradicionalmente. Apresentam-se de maneira mais pontual e restrita, saindo às ruas em épocas determinadas do ano, como nas festas de congado, ou de forma mais fechada, como no candombe.

O quadro, no entanto, parece estar em transformação. Bill Lucas assinala que o mundo viveu nas últimas décadas um boom da percussão, e Belo Horizonte, aos poucos, entrou na onda. A cidade, que um dia importou do Rio de Janeiro as escolas de samba, agora busca no nordeste novas possibilidades de ritmos e manifestações. Se em 2001, o Trovão das Minas era pioneiro em trazer, pelas mãos do percussionista Lenis Rino, o ritmo pernambucano para a capital, hoje, divide ruas e praças com Lua Nova, Macaia, Baque de Mina, Bombo de Iroko e Pata de Leão, para citar apenas alguns. Se do Maranhão veio o tambor de crioula, da Bahia chegou o samba de roda e o afoxé. “Tem muita coisas acontecendo. Todas as sextas, na Praça da Estação, temos o Tira o Queijo, encontro de batuqueiros de todos os grupos de maracatu. Nada melhor do que tocar na rua, com liberdade para se expressar, apesar que ainda existe uma repressão. Não é em qualquer local que se pode tocar descontraído”, conta a coordenadora do Baque de Mina, Alcione Araújo.

Para Tizumba, o tambor é especial, esteja ele nas ruas, nas praças, nos palcos, nas irmandades do Rosário ou nos terreiros de candomblé. “Quando eu tô tocando o tambor no meu show, estou em outro lugar. O som do tambor pra mim, desse que eu vivo nele, é paz e cura. O tambor não é um violino, ele tá além disso”, conta ele. O mesmo sentimento é compartilhado pelo percussionista Daniel Guedes, integrante do Bloco Oficina Tambolelê e presença constante na banda de diversos artistas da cidade. Daniel, que começou no djembê, considera-se escolhido pelo pandeiro, e não o contrário. “Quando eu toco, já não sou eu mais que tô ali tocando. É um cara que é um canal de várias coisas, canal de uma ancestralidade”, conclui.