2015 | 02

Luneta invertida

Pedro Kalil

Para aqueles da minha gera√ß√£o que frequentaram a Rua Tam√≥ios, 611, no Centro, o nome Butec√°rio sempre constituir√° um lugar de mem√≥ria. Aquele espa√ßo ‚Äď abrigado dentro do Sindicato dos Banc√°rios ‚Äď pode ter se desfeito na paisagem, mas at√© hoje, para alguns, a cada passada pelo local, retorna √† lembran√ßa ao lan√ßarmos o olhar para o alto, para aquele pr√©dio outrora rosa. E se olha para as janelas e se lembra que ali, circunscrito em um pequeno conjunto de paredes, um mundo parcialmente paralelo acontecia. Esse mundo existiu no espa√ßo de tempo que marcava o final do velho e o in√≠cio do novo mil√™nio.

Ali se fazia (ou se tentava criar) um outro mundo ou, ainda, tentava-se introduzir um outro mundo dentro do mundo de todo mundo. Ou se seguirem as literaturas que l√≠amos na √©poca, era uma esp√©cie de TAZ (uma Zona Aut√īnoma Tempor√°ria, como definiu Hakim Bey), quando calhava de reunir ali pessoas diversas. Cheguei como quase todo mundo deve ter chegado: um amigo me convidou para ver uns shows, as bandas eram Moan, Feelings, Vellocets e Fuso, algo, para mim, como o melhor do indie rock belo-horizontino da √©poca. A partir desse dia, o retorno seria constante, nem que fosse s√≥ na porta, nem que fosse para ver qualquer show que estivesse acontecendo por ali. A gente adentrava para se tornar um retornante. Os dias, obviamente, se tornaram confusos, e √© dif√≠cil estabelecer uma regularidade ou montar uma linearidade dos shows e acontecimentos, mas bandas como Ingovern√°veis, Libertinagem, Soap Bliters, Putrifuncinctor, Dread Full, Errror! fizeram apresenta√ß√Ķes que, para n√≥s, de uma forma ou de outra, foram hist√≥ricas. E tinha as bandas de fora de BH tamb√©m. A primeira vez que Los Hermanos se apresentou na cidade foi l√°, muito antes de eles estourarem com Anna J√ļlia, e, inclusive, bandas de outros pa√≠ses, como Fun People, da Argentina, tamb√©m invadiram o local.

O canto dos cisnes do Butec√°rio foi o show que n√£o aconteceu: a estadunidense Catharsis n√£o p√īde tocar ali, porque uma briga entre punks e straight edges implodiu os grupos que habitavam aquele espa√ßo, que n√£o era homog√™neo.

Mas o Butec√°rio n√£o era, simplesmente, uma casa de show em que se entrava e sa√≠a ‚Äď no sobe e desce de suas escadas. O Butec√°rio atravessava a vida de muitos daqueles que frequentava aquele espa√ßo e, hoje, ele √© como um rasgo na mem√≥ria. N√£o porque aquele espa√ßo tenha sido respons√°vel por causar uma fratura ou um trauma que se quisesse apagado; mas, sim, porque sei que para alguns ‚Äď e certamente para mim ‚Äď ele funcionava como uma esp√©cie de transi√ß√£o entre um antes e um depois, e que coincidiu, pra muita gente, com a passagem da adolesc√™ncia para a juventude. Esse momento em que se sai da menoridade e se lan√ßa pra vida, com seus medos, triunfos, energia, idealismo e vitalidade descontrolados.

Mas o que, ent√£o, levaria a esse momento de transposi√ß√£o em nossas vidas al√©m dos shows? Qual era o motivo pelo qual as pessoas se reuniam ali, em um espa√ßo no centro de Belo Horizonte? O Butec√°rio n√£o era apenas um local de show, era um local de encontro de pessoas que estavam inquietas em rela√ß√£o a alguma coisa no mundo; e, a partir dessa inquieta√ß√£o, dos shows, vinham as discuss√Ķes, as problematiza√ß√Ķes, os zines, os discos com encartes que se pareciam mais com um ensaio do que com um material promocional. Sobretudo a prolifera√ß√£o de zines, das mais diversas estirpes, contribu√≠a para um autoquestionamento sobre a vida (ou o que √© viver ou sobre como queremos viver). Ali eram potencializadas problematiza√ß√Ķes da nossa rela√ß√£o com o mundo, da nossa rela√ß√£o com os outros, da nossa rela√ß√£o com n√≥s mesmos, de modo que quase ningu√©m sa√≠a como entrava, em nenhuma das noites (ou tardes) em que se tornavam presentes as vontades.

No Butec√°rio j√° havia discuss√Ķes pol√≠tico/pessoais que transitam por mais de uma d√©cada ‚Äď direitos dos animais, anarquia, feminismo, direito √† cidade, monop√≥lio da m√≠dia, consumismo, etc ‚Äď e que se expandiram tamb√©m a partir dali, como O Dia Sem Compras na frente do Shopping Cidade; os protestos contra o FMI e o Banco Mundial no centro da capital, ainda no ano 2000. Na ocasi√£o dos protestos, os manifestantes foram acusados de serem ‚Äúv√Ęndalos mascarados‚ÄĚ. As discuss√Ķes tamb√©m fometaram eventos como o Carnaval Revolu√ß√£o ‚Äď misto de show, oficinas e discuss√£o pol√≠tica, al√©m de bloco, que passeava pela cidade quando aqui era a outra vers√£o do t√ļmulo do samba ‚Äď, a Verdurada e v√°rias outras a√ß√Ķes que faziam expandir o espa√ßo que anteriormente era circunscrito por uma esquina no centro da cidade. Suas fronteiras se tornaram, tamb√©m, vol√°teis, sendo o Butec√°rio mais do que aquela esquina que mudava constantemente de lugar. Claro que aquele territ√≥rio era tamb√©m parte do mundo, e fingir ou falsificar a mem√≥ria para que tudo seja imaculado e impoluto seria uma artimanha contradit√≥ria demais. Havia ali tamb√©m machismo, fetiches mercadol√≥gicos, homofobia, transfobia, classismo, etc., mas isso poderia ser colocado como um problema e ser discutido. Um assunto n√£o deixaria de ser problematizado, por mais inc√īmodo que causasse internamente naquela assembleia sem vozes fixas.

Discutir o mundo a partir das nossas próprias experiências, a partir de nossos próprios encontros com os outros e com nós mesmos era, a meu ver, o diferencial que fez com que aquele lugar começasse a habitar de maneira nostálgica e mágica os espaços da memória. Similar a outros territórios, como A Obra, Matriz, A Gruta, Estrela [Night Club] e os tantos citados nesta revista e alhures, o Butecário é, como éramos naquela época, um retornante, um espectro da vida que vivíamos intensamente e que volta para nos lembrar de quem somos, de onde viemos e para ajudar a mirar, sempre, aquilo que é possível (e aquilo que queremos) ser hoje.

O Butec√°rio (1996-2000) era um bar localizado na Rua Tam√≥ios, 611, no Centro, dentro do Sindicato dos Banc√°rios, entidade que at√© hoje tem sede por l√°. Al√©m de bar, abrigava shows e festivais. O espa√ßo era administrado por Edmundo Corr√™a ‚ÄĒ personagem her√≥ico da noite belo-horizontina ‚ÄĒ e pela imprescind√≠vel s√≥cia Andrea, que, desde 2000, est√£o √† frente da Casa Cultural Matriz, no Centro, tamb√©m singular e primordial para a cena independente de BH. Antes ainda desses dois endere√ßos, houve o Espa√ßo Cultural Calabou√ßo (1985-2003), no bairro Primeiro de Maio. A abertura da Matriz coincidiu com o fechamento do Butec√°rio, em 2000, em uma noite em que cadeiras voaram e o confronto, sempre latente entre punks e straight edges, enfim ocorreu. Shows podiam ser realizados √† tarde ou √† noite; em geral, de quinta a domingo.