2015 | 02

Do quarto à rua: uma leitura do heavy metal brasileiro

Guilherme Lentz

Como outros movimentos, o heavy metal no Brasil representa um contraponto a uma vis√£o negativa que se tem sobre a d√©cada de 1980. Ap√≥s a euforia da juventude das d√©cadas de 50, 60 e 70, os anos 80 assistiram a um esvaziamento da rebeldia jovem, que se institucionalizou e foi assimilada pela estrutura de consumo. No Brasil em processo de redemocratiza√ß√£o, a luta pol√≠tica perdeu peso e, aos olhos do grande p√ļblico, os jovens acomodaram-se em assumir seu papel de consumidores, o que se refletiu na produ√ß√£o cultural do per√≠odo, vista como f√ļtil e pobre do ponto de vista da criatividade. Diante disso, os anos 80 ganharam o ep√≠teto de ‚Äúd√©cada perdida‚ÄĚ, e quem foi jovem naquele per√≠odo foi enquadrado sob o r√≥tulo de ‚Äúgera√ß√£o Coca-Cola‚ÄĚ, em uma imagem que traduz vazio ideol√≥gico, pobreza intelectual e acomoda√ß√£o pol√≠tica. Apesar disso, nasciam nas grandes cidades manifesta√ß√Ķes que iam na contram√£o desse contexto. Novas tribos urbanas, como os punks e os metaleiros, desbravavam novos territ√≥rios de atua√ß√£o social e cultural. Fora dos grandes canais de m√≠dia, desenvolveram uma produ√ß√£o independente, atrav√©s da qual vozes desarm√īnicas ao grande sistema continuaram a soar. Nesse sentido, o heavy metal brasileiro foi, na d√©cada de 1980, um nicho de sobreviv√™ncia e ressignifica√ß√£o da rebeldia jovem, contribuindo para a abertura de espa√ßos de a√ß√£o cultural ainda operacionais no in√≠cio do s√©culo XXI.

Historicamente, a juventude se constituiu como uma categoria de tens√£o entre a rebeldia e a assimila√ß√£o pelo pr√≥prio sistema diante do qual ela representava um questionamento. √Č a partir do in√≠cio do s√©culo XX que o jovem come√ßa a ser reconhecido como agente social. At√© ent√£o, n√£o era consagrada a concep√ß√£o de uma fase intermedi√°ria entre a inf√Ęncia e a vida adulta. Isso come√ßou a mudar com a difus√£o da ideia de um progresso vigoroso e √°gil, que foi associado ao nascimento de ideologias pol√≠ticas como o fascismo, e logo incorporado a um militarismo. Assim, surgiam na Europa agremia√ß√Ķes juvenis formadoras de adeptos de diversas correntes pol√≠tico-militares que estiveram em voga na primeira metade do s√©culo XX. O fato, por√©m, de que esse per√≠odo foi marcado pela fal√™ncia de diversas ideologias que sustentaram seus projetos modernizadores abriu espa√ßo para um desvirtuamento da juventude. Guerras, persegui√ß√Ķes, crises sucessivas de emprego, de produ√ß√£o, de fronteiras se tornaram o universo de jovens cada vez mais sem perspectivas e cr√≠ticos de seu mundo. Essa insatisfa√ß√£o se concretizou de v√°rias formas ao longo do s√©culo XX, normalmente atrav√©s de movimentos sociais, aos quais o nascente rock¬īn¬īroll forneceu hinos. O grande alcance desse movimento, por sua vez, conferiu √† rebeldia jovem uma possibilidade mercadol√≥gica, e os pr√≥prios signos de rebeldia foram assimilados pela estrutura produtiva, o que devolveu o jovem ao seu papel na hierarquia social, em um paradoxo entre a ruptura e a acomoda√ß√£o.

No Brasil da d√©cada de 1980, o heavy metal se constituiu como uma ferramenta para se tentar escapar desse processo de coer√ß√£o. Ele foi um espa√ßo de exerc√≠cio da rebeldia, o que se manifestou em diversos aspectos de sua execu√ß√£o. Para existir nesses termos, o heavy metal abdicou de qualquer pretens√£o aos espa√ßos tradicionais de circula√ß√£o cultural. Para se apresentarem, as bandas buscavam espa√ßos novos, desconhecidos, decadentes ou improvisados. As not√≠cias se difundiam gra√ßas √† a√ß√£o de ferramentas rudimentares, como conversas em esquinas, recados telef√īnicos ou fotoc√≥pias prec√°rias de cartazes. A princ√≠pio, a divulga√ß√£o das can√ß√Ķes era feita atrav√©s de fitas cassete, gravadas quase sempre amadoristicamente. Copiadas com a duvidosa tecnologia da √©poca, esses registros passavam de amigo a amigo at√© atingirem uma pequena plateia. Pouco a pouco, surgiram desbravadores que, em oposi√ß√£o ao grande mercado, dispuseram-se a abrir espa√ßos de conv√≠vio e consumo para essa plateia: lojas especializadas, programas de r√°dio e casas de show acolheram esse p√ļblico, que, assim, ganhou contornos de uma comunidade. Pequenas gravadoras come√ßavam a colocar nesse mercado restrito, mas fiel, √°lbuns desses artistas. Ganhava consist√™ncia o universo da m√ļsica alternativa, tamb√©m conhecida como underground. Fortalecia-se uma cena que desenvolvia seus pr√≥prios c√≥digos de cria√ß√£o, de vestu√°rio, de conduta. O heavy metal, como outros movimentos alternativos do per√≠odo, colocava-se como uma for√ßa de contesta√ß√£o e uma alternativa de exist√™ncia jovem, fora do sistema massificador e alienante.

Esse processo se desenvolveu, como se v√™, a partir de uma dimens√£o individual at√© alcan√ßar uma dimens√£o coletiva. Como outros movimentos de contesta√ß√£o jovem, o heavy metal atingiu primeiramente jovens solit√°rios, que chegavam a ele atrav√©s de informes isolados e o descobriam no sil√™ncio de seus quartos. Sua transforma√ß√£o em um movimento √© ao mesmo tempo causa e efeito do contexto brasileiro das d√©cadas de 60, 70 e 80. A falta de perspectiva pol√≠tica e a constante crise econ√īmica, por um lado, e o desenvolvimento industrial e a organiza√ß√£o de movimentos sindicais e de luta ideol√≥gica, por outro, constitu√≠ram-se em terreno f√©rtil para o desenvolvimento de a√ß√Ķes rebeldes jovens a partir do final da d√©cada de 1970. A chamada regi√£o do ABC paulista, com sua nascente tradi√ß√£o de um proletariado engajado, centralizou muito desse processo. Em outros grandes centros urbanos brasileiros, fen√īmeno semelhante aconteceu. Pouco a pouco, o jovem admirador de heavy metal deixou a solid√£o de suas audi√ß√Ķes para expressar sua vis√£o de mundo atrav√©s de can√ß√Ķes pr√≥prias. Esse deslocamento, da solid√£o do quarto √† participa√ß√£o em espa√ßos de apresenta√ß√£o e troca de material, corporifica bem a trajet√≥ria do heavy metal como movimento no Brasil.

Em Belo Horizonte, esse processo se desenhou dentro de contornos muito particulares, o que talvez explique em parte n√£o s√≥ a for√ßa do movimento na pr√≥pria cidade, mas tamb√©m seus ecos em outras partes do mundo. A capital mineira √©, talvez, o primeiro centro urbano que se deparou com a necessidade de supera√ß√£o e autoafirma√ß√£o. Diferentemente dos cariocas, √≥bvios irradiadores culturais, ou dos paulistanos, cosmopolitas e naturalmente referenciais, o belo-horizontino precisava construir e conquistar seu espa√ßo. Isso implica, por um lado, um movimento de resist√™ncia, de interioriza√ß√£o, de apego a ra√≠zes; por outro, um movimento de supera√ß√£o e autoimposi√ß√£o. A necessidade de ser do mundo e, ao mesmo tempo, ser Minas Gerais contribuiu para a exist√™ncia das tens√Ķes que tornaram o heavy metal belo-horizontino t√≠pico. Nos √°lbuns seminais do estilo na cidade ‚Äď como o split S√©culo XX/ Bestial devastation, do Overdose e do Sepultura, ou a colet√Ęnea Warfare noise ‚Äď s√£o n√≠tidas tanto a presen√ßa cr√≠tica da religiosidade, do trabalho dom√©stico, da tradi√ß√£o familiar, tra√ßos tipicamente associados √† cultura mineira, quanto a inspira√ß√£o can√īnica vinda do heavy metal dos centros brasileiros e de outras partes do mundo. O fantasma, a inconfid√™ncia, o ar da serra, o ponto de tens√£o entre a alma da fazenda e a alma da cidade entre outros elementos formadores da cultura mineira continuaram presentes em toda uma linhagem de bandas locais, como Multilator, Holocausto, Chakal, Maybem, entre muitas outras, conquistando adeptos entre os f√£s de heavy metal em outras culturas marginais do mundo e desenvolvendo um sotaque particular de rebeldia metaleira em Belo Horizonte.

Os ecos das guitarras distorcidas ainda se fazem muito presentes no in√≠cio do s√©culo XXI. √Ä medida que os anos 90 se aproximavam, o movimento heavy metal aparentemente se enfraquecia no Brasil. A conclus√£o do processo de redemocratiza√ß√£o, a concretiza√ß√£o da participa√ß√£o trabalhista em v√°rias esferas do poder e a constru√ß√£o de uma almejada estabilidade econ√īmica, in√©dita para a juventude brasileira, contribu√≠am para um clima de serenidade destoante das vertentes metaleiras mais extremadas. Muitos daqueles jovens, chegando √† vida adulta e assumindo pap√©is profissionais, deixaram a m√ļsica para se dedicarem a outras atividades. No plano cultural, a contrata√ß√£o de v√°rias bandas internacionais por grandes gravadoras, embora pudesse ser igualmente compreendida como uma assimila√ß√£o pelo sistema dominante, foi tamb√©m festejada como a consagra√ß√£o de uma proposta, o que trouxe a muitos artistas do movimento um senso de conclus√£o e um novo direcionamento po√©tico-musical. Diluindo-se por outros estilos e se reconstruindo, o heavy metal foi tanto celebrado quanto dilu√≠do, o que alguns viram como conquista, e outros, como neutraliza√ß√£o. Hist√≥rias, por√©m, ficaram por ser contadas. As letras, as grava√ß√Ķes, as capas de disco e outros registros haviam deixado sua marca na cultura jovem brasileira e continuaram a ser redescobertas, inspirando novas gera√ß√Ķes. Espa√ßos abertos para a cultura alternativa continuaram em funcionamento, enriquecidos pelas ferramentas de comunica√ß√£o em uso a partir do advento da internet. Enquanto ganha in√≠cio o s√©culo XXI e o Brasil caminha rumo a um embate com seus problemas, como a desigualdade social, a corrup√ß√£o e a discuss√£o sobre os segredos soterrados desde o fim da ditadura militar, √© apropriado que os remanescentes do heavy metal brasileiro se organizem a si mesmos, na tentativa de atribu√≠rem significado √† sua contribui√ß√£o para esse processo. Embora n√£o fa√ßa mais sentido pensar em uma juventude massificada e coesamente agrupada ao redor de um projeto rebelde comum, grupos diversos se valem desse legado para se engajarem em seus pr√≥prios projetos de rebeldia.