2015 | 02

Um lugar para o experimento

Nina Gazire

No dia 28 de agosto de 2011, a [hoje extinta] banda Ü fez um show na praça de alimentação do Ponteio Lar Shopping. O show teve o nome de “Que tal um desodorante de ornitorrinco?” e substituía a palavra capital, no texto homônimo de Karl Marx, pela palavra ornitorrinco, ao som de barulhos abstratos. “Uma pessoa que tava fazendo um evento de arte lá nos chamou. E a gente falou ‘cara, a gente tem que tocar no shopping’. E não é possível a gente tocar no shopping e agradar, então a gente vai fazer o melhor para desagradar. Infelizmente não foi possível, porque tava muito vazio e estavam só os nossos amigos”, conta Miguel Ávila, então baixista do quarteto.

No dia 28 de agosto de 2011, a [hoje extinta] banda Ü fez um show na praça de alimentação do Ponteio Lar Shopping. O show teve o nome de “Que tal um desodorante de ornitorrinco?” e substituía a palavra capital, no texto homônimo de Karl Marx, pela palavra ornitorrinco, ao som de barulhos abstratos. “Uma pessoa que tava fazendo um evento de arte lá nos chamou. E a gente falou ‘cara, a gente tem que tocar no shopping’. E não é possível a gente tocar no shopping e agradar, então a gente vai fazer o melhor para desagradar. Infelizmente não foi possível, porque tava muito vazio e estavam só os nossos amigos”, conta Miguel Ávila, então baixista do quarteto.

A banda Ü foi um dos muitos projetos do somatório de “pesquisas musicais, muitas vezes anônimas” – como localizou a compositora e pianista brasileira Jocy de Oliveira, recentemente, em coluna do jornal O Globo. [Jocy ainda vaticinaria que aquela narrativa da música com início-meio-fim estaria indo para o espaço, porque “ser artista se transformou em utopia”]. Segundo Miguel, a Ü nem era tão experimental assim, já que “as composições possuíam uma estrutura rítmica e o formato canção”. Após o término da banda, em meados de 2014, ele e o guitarrista Marcelo Olecram – ambos há oito anos em busca de um lugar para que suas experiências sonoras sejam vistas em BH – seguem tocando em outros projetos, como o duo Efeito Gruen, resultado do Não Onda, projeto voltado para certa cena do rock experimental belo-horizontina.

O Não Onda teve início no dia 12 de fevereiro de 2011, durando dois dias, no extinto inferninho do Nelson Bordello, localizado no hipercentro de Belo Horizonte. Em certa medida, o festival foi inspirado no movimento No Wave, que teve lugar na Nova York do início dos anos 1980 e mesclava a música punk com a estética experimental. Junto de outras bandas de seu contexto, Miguel criou – ao lado do produtor Carlos Frankiw e do saxofonista da Ü, Chico do Sax – a primeira edição do projeto, que reuniu os mineiros Fada Robocop Tubarão, Grupo Porco de Grindcore Interpretativo, Madame Rrose Sélavy, Ü, entre outras [até 2013, duas outras edições seriam realizadas]. “A gente viu a ascensão do peexbaA! Aliás, foi isso que me deu vontade de montar uma banda. E, na época, eles estavam totalmente sozinhos em BH. Tudo o que a gente fez em 2009 foi pra eles voltarem e tocarem no Não Onda”, revela Miguel.

Ao desejo de criar um espaço para a mineira pexbaA – que desde o lançamento de seu último disco, em 2008, estava sem se apresentar – somou-se um cenário prolífico de bandas novas, voltadas à experimentação, mas que se sentiam sem lugar pra mostrar sua estranheza. “O pessoal gosta muito de ir em um lugar determinado tempo e, depois, muda pra outro, e aí vem outro. Poucos lugares têm um público cativo. A gente, que é meio inclassificável, não encontra um lugar”, observa Ana Moravi, vocalista do Madame Rrose Sélavy que, ao lado da Ü, participou das três edições do evento. Composto também por Dellani Lima, Rodrigo Lacerda e Alex Pix, o grupo faz um som voltado ao pop experimental – misturando referências como Arrigo Barnabé, electro e frevo –, o que a fez parar no dicionário Cravo Klabin de Música Popular Brasileira ao cunhar o termo “Bossa Punk”. O próprio guitarrista Dellani Lima afirma que “a música experimental não morreu”, mas a competição pelo público é que torna a definição de música uma coisa nebulosa por causa de seus vários nichos. “É óbvio que existem grandes experiências musicais que atingem um grande público, mas são casos raros. Está complexo alcançar seu público, mas ele existe, e é necessário um trabalho mais intenso de ação direta, vindo dos próprios artistas e da cena”, diagnostica

Mais tarde, da região central da cidade, o Não Onda se deslocou para o bairro de Santa Efigênia. Mais especificamente, para o Georgette Zona Muda, espaço que abrigou uma das melhores configurações do Festival. O “Georgette”, como ficou conhecido, foi uma espécie de coworking onde vários criadores dividiam uma casa localizada na avenida Brasil, no número 75. De fevereiro a março de 2013, o festival teve ali sua última edição, posteriormente tentando se configurar como uma rede de rock experimental. Após produzir o lançamento de uma coletânea, lançada pelo selo Azucrina Records, atualmente o Não Onda é realizado de forma esparsa, apenas convidando bandas para fazerem apresentações em diferentes casas da cidade. “Só existem dois tipos de eventos: o ridiculamente lotado ou o absolutamente vazio. Por alguma razão, outros nichos não se estabelecem”, observa Miguel, reconhecendo a dificuldade de se manter o fomento à música experimental em Belo Horizonte.

Nesse sentido, outro movimento, conhecido como Geração Perdida, encabeça o mote da dificuldade de encontrar espaço para a música independente associada a um mínimo de experimentalismo. Polêmicos, a Geração Perdida ficou também conhecida por apontar percepções divergentes sobre cenários como o da Praia da Estação e questionar a “superexposição” de bandas como Graveola e o Lixo Polifônico e Transmissor. Apesar de notáveis diferenças, entre elas o discurso e a própria produção artística, Miguel concorda que há pontos de encontro entre Geração Perdida e Não Onda. “Eu não saco muito a galera não, mas é curioso que eu sinto uma espécie de afinidade. Primeiro, que esse nome Geração Perdida é realmente horrível. Mas Não Onda também é um nome ruim, é um nome oswaldiano, entendeu? Mas acho que somos parecidos pelo espírito de coletividade”, pondera.

QUERO TOCAR NO FAUSTÃO
A Geração Perdida surgiu há cerca de três anos, ressonando a revolta com o cenário musical de Belo Horizonte. O movimento traz um tom panfletário, criticando os excessos daquilo que eles chamam de “esquerda festiva” e seu contágio na arte da cidade. Em diferentes e controversas entrevistas, muitas vezes comandadas por sua voz mais ativa, o vocalista da banda Lupe de Lupe – Vitor Brauer –, a Geração Perdida define que uma das inspirações da causa é a cidade de Belo Horizonte, funcionando aí como uma espécie de “antimusa”.

Em um manifesto que circulou na forma de um release, a Geração Perdida diz ser “feita de sonhos que se desgastaram durante o percurso”. A alegada tormenta de não conseguir uma exposição adequada, dificuldades de produção e a asfixia em um cenário artístico extremamente restrito foi transformada em projeto estético. Mas, afinal, do que/quem é feita a Geração Perdida? Mais do que um coletivo de bandas, a GP é encabeçada pelo poeta Marcelo Diniz Silveira, o artista audiovisual Jonathan Tadeu e a ilustradora/videomaker e música Paola Rodrigues. Bandas como a Lupe de Lupe, Young Lights e Quase Coadjuvante produzem documentários, camisetas, textos e videoclipes que, muitas vezes, passam pelo crivo artístico de Paola Rodrigues e Jonathan Tadeu.

A baiana Paola Rodrigues, além de dirigir o minidocumentário Geração Perdida em SP, que mostra a primeira turnê das bandas na capital paulista, lançou em abril seu primeiro disco, apropriando-se de um formato pouco familiar no contexto do rock brasileiro que é o Spoken Word. Com o nome de Perdida, o álbum traz 11 músicas no formato de colagens musicais e sonoras – onde poemas ou músicas são falados –, realizadas em sua própria casa. No disco estão temas como a distância de casa, da família e o suicídio do pai.

As composições de Paola, bem como de outras bandas do coletivo, almejam “uma honestidade suja”, como definiu Vitor Brauer, que também produziu o disco de Paola. “Temos um contato mais honesto com a arte. A gente quer falar de coisas que ninguém tem coragem de falar. Somos experimentais demais para quem gosta de música certinha e, pra a galera do experimental, a gente é pouco”, afirma ele.

A Geração Perdida nunca realizou um festival como o Não Onda, mas fez diversas festas que ocorreram, paradoxalmente, em casas de shows que abrigam a música independente de Belo Horizonte [!]. “A questão é que a gente toca nesses lugares, mas fica sem lugar nesses próprios lugares”, continua Vitor. Como saída para a falta de espaço, o coletivo buscou nas redes digitais canais que os levassem para fora da cidade. A banda Lupe de Lupe – composta por Vitor Brauer, Cícero Nogueira, Gustavo Scholz e Renan Binini – já viajou por quase todas as regiões do país. “Hoje a gente decidiu fazer menos shows aqui, já que não somos chamados para os festivais de visibilidade. A gente produz muito, fizemos oito discos, e tudo o que a gente faz a gente solta. Se a gente pudesse, a gente tocava no Faustão”, explica Vitor. Paola concorda que o grande diferencial da GP é exatamente essa produção de conteúdo independente de circuitos mais tradicionais. “O Geração Perdida mostrou pra mim que a coisa mais importante que a gente tem é o fazer e lançar. Eu sou muito Geração Perdida. Ser Geração Perdida é fazer independentemente dos seus erros”, conclui Paola, que fez seu primeiro show na cidade do Rio de Janeiro após o lançamento do disco, mas ainda não realizou nenhuma apresentação na capital mineira.

[!] Em janeiro de 2015, a Lupe de Lupe fez show que abriu as portas para o público d'A Autêntica, casa voltada à musica autoral localizada na região da Savassi.

A música produzida pelo GP é marcada pela instabilidade de uma sonoridade que oscila entre o acessível e o som mais difícil, como é o caso do projeto de Paola. Isso faz com que o coletivo produza um lugar único para si. Fora de qualquer mapeamento facilmente identificável, há no projeto estético do GP “o artista como última utopia”, onde a manifestação final é de uma arte feita de experimentação, pensada principalmente como tentativa, erros e acertos.

É o que parece seguir insistindo a Lupe de Lupe que, em novembro de 2014, lançou [!] na internet Quarup, seu disco mais recente e que leva o nome do ritual dos povos da região do Xingu de trazer os mortos à vida. “Queríamos que o nome do disco invocasse uma espécie de experiência religiosa”, conta Vitor. E, de fato, o devir religioso se dá não por um acesso direto e pessoal do ouvinte. Com 21 faixas, o álbum duplo é uma espécie de cartilha doutrinária da própria banda. “Quarup é mais um exemplo de como a gente se impulsiona a fazer o que ninguém faz, se colocando entre gêneros e entre cenas”, confirma Vitor que, ao lado de outros componentes da Lupe de Lupe, trabalhou nesse álbum de quase duas horas, modelo pouco convencional para o mercado brasileiro.

[!] Disponível em lupedelupe.bandcamp.com/album/quarup no modelo “pague quanto quiser”

Estão em Quarup o Velvet Underground, The Smiths, Sonic Youth, se possível, como pastiches pintados de verde e amarelo para uma cerimônia de sacrifício à sobrevivência da produção independente que segue o modelo de experimentação daquilo considerado por muitos como o melhor do rock. A faixa “Reino dos Mortos”, por exemplo, parece testemunhar as dificuldades de se fazer música no cenário belo-horizontino por meio do verso “Eu perdi, eu perdi, eu perdi / perdi o dia em que cidade virou mérito/ Aqui sempre foi o reino dos mortos”. Para Vitor, músicas como essa dão o tom do disco. “A faixa ‘Reino dos Mortos’ mostra uma transição por vários lugares e, finalmente, um não permanecimento em nenhum deles, criando um lugar próprio pra gente”, finaliza. A Lupe de Lupe é a prova de que o experimental atual vai além da lógica do personagem de Mary Shelley: não apenas um morto-vivo patricida e feito de pedaços fragmentados, mas um canibal cujas receitas culinárias devem ser sempre profanadas.

 

Onde está o Wally experimental?

Pouca gente sabe, mas foi num salão – criado em 1979 para o ser o point dos pés de valsa da cidade – que um dos maiores expoentes da música experimental brasileira surgiu. Numa noite nada incomum de julho de 1997, o quarteto pexbaA – formado por Rossano Vittório, João Marcelo Santos, Rodrigo Magalhães e Rodrigo Otavio – fez sua primeira apresentação, no extinto Estrela Night Club, ao lado de bandas como a mineira Ultrassom e a paulistana Os bonecos. Um dos anúncios da casa (localizada à Rua Curitiba, 1275, Centro) assim a descrevia: “Salão de 200 metros, com pisos de taco e paredes espelhadas. Suas quintas são dedicadas a danças de salão; nas segundas e quartas o salão pega fogo com o forró, modalidade de mais sucesso da casa”.

O nascimento do pexbaA em um lugar aparentemente inusitado para o tipo de som é paradigmático da cena experimental de BH. É também resultado do, digamos, incomum período gestacional da banda. Seu embrião foi o Escola Mineira de Disfunção (EMD) que, por sua vez, se tratava dos espólios de outra banda, a metaleira Holocausto. “Os shows do Holocausto não eram muito aceitos; tinha uma musicalidade que ninguém aceitava. A gente ganhava latada nos shows, ameaçavam dar porrada na gente”, relembra o ex-baixista João Marcelo Santos que, ao lado de Rossano Vittório, deixou o Holocausto em 1994 para fundar o EMD.

Como tantas, o Escola Mineira de Disfunção surgiu em um quarto, que funcionou como uma espécie de laboratório para a banda por vir. Com um gravador de quatro canais, a dupla registrava experimentos sonoros que hoje, segundo João Marcelo, estão perdidos em uma caixa de sapatos por aí, apesar de algum registro do EMD poder ser encontrado no site bandcamp. “A gente tava no quarto do Rossano, onde ninguém mais enchia o saco da gente. Éramos meio antissociais, não saíamos. A gente foi gravando, gravando, e chegou um ponto que a gente falou assim: ‘chega!’”, conta. A dupla convidou o baterista Rodrigo Magalhães, o que acabou sendo um passo para o nascimento do pexbaA, cujo projeto era “fazer uma música entrópica feita de todas as referências do mundo, anulando qualquer chance de informação identificável”. A começar pelo nome, criado a partir de um sorteio aleatório de letras.

Quatro discos lançados pelo Unha Records (selo criado pelo próprio grupo), selecionados para prêmios e presença em importantes festivais – incluindo internacionais, como o texano South by Southwest, em 2002 –, pexbaA tem vital importância no cenário da música experimental brasileira. E onde está o pexbaA hoje? Não há uma única resposta, mas basta saber que vive por aqui e por aí, a partir de outras tantas bandas e cenas que se arriscam em lugares como o de onde o pexbaA se gestou. Não importa se em um quarto disfuncional, uma página no bandcamp, um espaço compartilhado ou um salão de dança.