2015 | 02

Os sons ao redor

Jessica Soares

A primeira guitarra não tinha cordas. Roubada do quarto do irmão (onde só servia de enfeite), o instrumento tinha cabos de aço de bicicleta como fios improvisados, usados para arrancar os primeiros sons. As melodias tortas que calejavam os dedos de Robert Frank foram só os passos iniciais para o surgimento da banda Pelos (então chamada “Pelos de Cachorro”), criada em 1997 no Aglomerado da Serra. “A gente já estava ensaiando, há um tempo, com outra banda, que chamava Pulgas, e na Serra, na Vila onde a gente morava, tinha uma banda chamada Anjos de Metal, uma outra chamada Molusco”, relembra Robert. Em 1999, se reuniram e resolveram fazer um ensaio aberto na rua. Correram atrás de um palco emprestado, organizaram os instrumentos e pregaram cartazes para divulgar o show entre os moradores. “Durante as apresentações, alguém brincou no microfone ‘por que, ao invés do Pop Rock, a gente não faz o Faverock?’”, relembra Jansey Valdez, da Anjos de Metal, também formada em 1997.

O nome pegou – e a ideia também. O evento, que teve sete edições e foi realizado até 2006, era um convite ao diálogo com a cidade: a partir da terceira edição, passou a ser realizado entre as ruas Capivari e Alípio Goulart, no encontro entre o Aglomerado da Serra e o bairro que lhe dá nome. Centrado inicialmente nas bandas da região, a interlocução foi depois ampliada para outras periferias e os músicos passaram a investir mais na articulação para trazer bandas da Região Metropolitana de Belo Horizonte para a roda. A roda de conversa também aumentou dentro da comunidade, onde o festival teve efeito multiplicador. Grupos que já existiam tiveram a oportunidade de se apresentar pela primeira vez, e outros muitos surgiram entre as edições. Realizado de forma inteiramente colaborativa, o Faverock foi organizado e divulgado pelos próprios jovens artistas e tinha preocupação em mudar a imagem da favela. “É um preconceito que muita gente tem, achar que a periferia só vai trazer certos tipos de música, só o rap ou só o funk. E, na verdade, não é. É diverso como todos os outros espaços da cidade”, conta a hoje jornalista e música, Mariana Zande, que começou a participar da organização do evento a partir de sua quarta edição.

OUVIR O (IN)VISÍVEL
Ao constatar que a produção artística nas periferias ainda era pouco estudada e investigada, a antropóloga Clarice Libânio deu início a uma pesquisa em 226 áreas periurbanas de Belo Horizonte – regiões que reúnem muitas vozes: segundo dados de 2012 da Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (URBEL), 19% da população da cidade reside em vilas, favelas, conjuntos habitacionais populares e outros assentamentos irregulares. O trabalho, que culminou na publicação do Guia Cultural das Vilas e Favelas de Belo Horizonte em 2004, identificou 739 artistas solo e grupos culturais, com mais de 6 mil pessoas envolvidas com música, artesanato, dança, artes plásticas, teatro, literatura e religiosidade. A pesquisadora estima que, na época, o número deveria ser ainda maior. “A gente fez a pesquisa começando pelas lideranças comunitárias, mas percebemos que essas lideranças conheciam pouco a produção cultural das suas próprias comunidades. Então, apesar de 6 mil ser um número enorme, ficou muita gente de fora [do levantamento inicial]”, afirma Clarice. Com intenção de apoiar e divulgar as artes dessas comunidades, a pesquisadora criou a Favela é Isso Aí, ONG que tem como objetivo apoiar e divulgar as ações de arte e cultura da periferia. Passados dez anos desde a publicação do levantamento, Clarice vem tentando viabilizar a atualização e disponibilização virtual de toda a pesquisa realizada em 2004. Naquele ano, apenas 20% dos artistas ouvidos pela pesquisadora conseguiam sobreviver da arte.

Se a visibilidade do trabalho produzido nesses espaços é restrita, mesmo dentro das comunidades, a pesquisa apontou o quanto ela ainda pode ser invisível para o restante da cidade. Segundo a professora do departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), Rose Satiko Gitirana Hikiji, a impressão que se tem muitas vezes, no mainstream do entretenimento, é que as periferias seriam locais ausentes de cultura e de manifestações artísticas. Muitas vezes usada como sinônimo de “favela” ou reduzida à designação de lugares geograficamente distantes do centro, a palavra “periferia” está mais ligada hoje a lugares e sujeitos abandonados pelas políticas públicas; ainda, ela pode ser pensada do ponto de vista econômico, como parcelas do território da cidade que têm baixa renda diferencial, sendo a própria ocupação do território urbano uma forma de estratificação social. “Se tem uma ideia de arte muito criada a partir de um centro, a partir de uma concepção elitista da arte. E o que a gente tem observado, seja por meio dos saraus ou de iniciativas com audiovisual, é que existe uma produção grande, que não é nova, vem sendo desenvolvida já há algum tempo e está presente na periferia”, afirma.

Para a pesquisadora, os esforços para a construção de lugares para práticas e encontros em torno de atividades artísticas acabam promovendo o desenvolvimento de uma outra imagem para esses espaços. “Eles [os artistas] começam a construir para si uma visualidade, passam a ser reconhecidos fora da quebrada, fora da comunidade local, e a periferia passa a ser reconhecida também como espaço de cultura, de lazer, de encontros”, afirma a pesquisadora que é responsável pelo projeto de pesquisa “Olhar, escutar, criar: uma análise da criação de sensibilidades e identidades a partir da performance artística entre jovens das periferias metropolitanas”.

FAZER RESSOAR
Feita por e para artistas de periferia, a Produto Novo (então chamada Produto Tosco) nasceu em 2003 na Vila Maria, na região Nordeste de Belo Horizonte, e é fruto da “vontade (e necessidade) de se produzir e possibilitar o acesso à produção musical e audiovisual de pouco orçamento”, conta o seu idealizador Clebin Quirino. Envolvido na cultura hip hop desde 1996, ele esbarrou nos altos custos quando resolveu procurar um estúdio para gravar a primeira música. Além da dificuldade financeira, ficou insatisfeito com a forma que os produtores lidavam com a música que queria produzir e decidiu tentar resolver, de uma só vez, os problemas econômicos e criativos. Em 2002, com um computador de segunda mão, começou a fazer, por conta própria, a produção musical de seus trabalhos. No ano seguinte, a produtora se estabeleceu oficialmente.

Para ele, que agora acumula também a função de produtor, tornou-se ainda mais claro que se fazer ouvir é mais uma etapa a ser vencida. Clebin passou a oferecer aos artistas a produção do primeiro videoclipe, além da possibilidade de trocar a gravação por serviços, em esquema de permutas, combinadas caso a caso. Mas, apesar das oportunidades, afirma: só gravar não basta. “Às vezes o dinheiro sozinho não resolve o problema, a maioria dos artistas da periferia que está começando não sabe como se lançar ou não conseguem acessar equipamentos públicos para ir além da gravação da música. Acabam ficando só no YouTube ou no Soundcloud, sem fazer apresentações”, diz. O produtor, que também integra o grupo Coletivo Dinamite, conta que vem tentando formar uma rede de apoio, em que os músicos mais experientes trocam informações com os novatos. “A ideia é pensar a carreira artística não só como gravar uma música, mas como algo que tem um antes e um depois e que precisa de continuidade”, afirma.

Para Cacá Gualberto, morador do Alto Vera Cruz, na região Leste de BH, não foi fácil encontrar apoio para desenvolver uma carreira. Ele, que cresceu em uma casa em que se ouvia música a todo o tempo, começou a se envolver no fazer musical quando ganhou um pandeiro. Depois de aprender por conta própria a tirar sons do instrumento, entrou para uma banda de samba na comunidade. Mas queria mesmo era cantar e compor as próprias músicas. Ainda sem experiência, ouviu os amigos enumerarem todas as dificuldades que enfrentaria se seguisse insistindo em se tornar um cantor, conselhos sempre acompanhados de uma recomendação final: deveria desistir.

Preferiu continuar tentando mesmo assim. Comprou um violão de segunda mão e começou a experimentar, com revistinhas de partituras, os sons do instrumento de corda. Sem aulas de canto ou violão, tropeçava aqui e ali para encontrar o tom. Quando participou das oficinas de musicalização ofertadas pelo projeto Arena da Cultura, surgiu a primeira chance: foi convidado para participar do FAN – Festival de Arte Negra em 2003. “Eu subi no palco, vi aquela multidão, eu não sabia o que fazer. Eu pensei, ‘poxa, é agora, se eu fizer feio vou fazer feio para mais de mil pessoas, tenho que fazer bonito’. Entrei meio com medo, mas rapidinho me encontrei naquele palco ali, fazendo um trabalho meu, uma composição minha. Foi um momento único, eu senti que a música tocou as pessoas ali, isso não tem preço”, relembra. “Nas veias corre / o Sangue Guerreiro / de um povo que faz / parte da nossa história. / Resistindo ao tempo / e ao preconceito / negro é raça, é cor / que não desbota.”, cantou naquele dia, que ajudou a abrir portas para novos projetos que segue desenvolvendo.

Atualmente, Cacá participa da retomada de um projeto antigo que, por alguns anos, movimentou a cena musical do Alto Vera Cruz. Criado no final da década de 1980, no evento Tambor Alto, a polifonia era consequência natural do contato próximo estabelecido entre os artistas de diversos gêneros que atuavam na região. Rock, samba, funk, gospel, tambor ou capoeira, o evento buscava promover encontros e chamar atenção – dentro e fora da comunidade – para a produção artística feita ali. Realizado pelo Centro Cultural do Alto Vera Cruz, a articulação esteve ativa durante sete anos antes de ser interrompida.

Em 2014, com a proposta de reunir novamente os muitos sons produzidos nos bairros da região do Alto Vera Cruz, o evento voltou a fazer parte do calendário cultural da comunidade. A primeira edição da “retomada” aconteceu em 7 de setembro, e a ideia é que passe a ser um encontro anual. “A maior contribuição desse tipo de evento é dar visibilidade para os artistas que já estão trabalhando há muito tempo e não têm espaço na mídia tradicional. Faz com que os interessados busquem a informação. É como dar um toque, ‘olha, nós estamos aqui, estamos trabalhando’”, afirma o rapper e agente cultural do CAC, Evandro MC, que faz hip hop e trabalha na articulação dos artistas da comunidade desde 1987.

ESPAÇOS MUSICAIS
Moradores do Conjunto Santa Maria, na região Centro-sul de Belo Horizonte, os integrantes da banda 12duoito tiveram contato com manifestações culturais no bairro desde cedo. Sendo vizinhos da tradicional Escola de Samba Cidade Jardim, muitos deles começaram a desenvolver nas oficinas ali ofertadas os primeiros sons que se misturariam para compor a sonoridade do grupo, formado há oito anos. Além de misturar músicos de diferentes idades, a banda aposta na combinação de rock, samba de raiz, maracatu e influências de afrobeat. Mas, segundo Jefferson Gomes, um dos vocalistas do grupo, a estética sonora não é a única preocupação dos oito integrantes.

“Quando a gente começou a fazer experimentações lá no bairro, a gente viu que, dentro das comunidades, tem uma demanda muito grande, uma galera muito interessada em diferentes estilos de som, em outros tipos de proposta. E não era uma coisa de ir numa comunidade e levar para lá a cultura. A gente queria pegar a cultura que já é de lá e dar pra ela a sua devida força”, defende. Apostando no poder transformador da música, decidiram atuar mais de perto no espaço. Uma das dificuldades que encontraram para tirar as ideias do papel foi o financiamento. “Os editais são muito rebuscados, então, sem querer, isso já é um segregador – abre uma oportunidade, mas acaba contemplando uma galera que já tem mais facilidade nesse tipo de questão”, afirma.

Para não deixar que esse obstáculo impedisse a realização das atividades, resolveram procurar novas formas para viabilizar as ações. Em agosto de 2012, articularam artistas e vizinhos e uniram forças para realizar, pela primeira vez, a ação Se essa rua fosse minha. Além de reunir os artistas locais em apresentações musicais, oevento, realizado nas ruas do Conjunto Santa Maria, reúne, durante um dia inteiro de atividades, peças teatrais, graffiti, oficinas de pintura, feira de trocas e pintura de fachadas. Com todas as ações viabilizadas por meio de permutas, a ação vem sendo realizada anualmente desde então.

CIRCUITOS PERIFÉRICOS
Do contato e troca entre a banda 12duoito e outros artistas que articulam ações semelhantes – como Uai Sound System, que integra o Projeto Norte Cultural, no bairro Tupi; Bangalô Cultural e Casa Amarela, em Contagem; e Favela Groove, de Santa Luzia – surgiu a ideia para realização do Circuito Periférico, projeto de circulação de apresentações musicais em cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Realizado em parceria com o Coletivo Beat Selecter e com apoio logístico do edital Música Minas para a viabilização das passagens, o grupo percorreu em 2014 as cidades de Sete Lagoas, Ribeirão das Neves, Contagem, Mariana e Santa Luzia. A ideia é articular uma rede de artistas em cidades em que há maior dificuldade de acesso a equipamentos e eventos culturais, propiciando trocas e intercâmbios entre os agentes culturais atuantes no estado.

“Quando a gente era mais novo, nos nossos bairros, foi por causa de ações pequenas assim que a gente desenvolveu o gosto por música e por arte. É esse poder que eu acho que é mais transformador e importante, de uma criança, ou mesmo um adulto, ter contato com diversos tipos de som, ter o contato com o músico executando o instrumento – isso tudo desperta sonhos e vai marcar, ainda mais nessa fase da vida”, afirma Jefferson.

É esse poder catalisador que também busca explorar o Coletivo Cabeçativa, que atua no Barreiro. Formado em 2013 com o objetivo de fomentar e organizar eventos culturais na região, o grupo promove encontros que rimam rap e poesia. A ideia para o início das atividades surgiu poucos meses depois da formação do IP 4:20, grupo que mistura rap, reggae e rock. João Paiva, Belinha Costa e Fellipe Beluca, integrantes da banda, foram os responsáveis por dar o pontapé inicial às atividades que acontecem sempre na Praça Joana D'arc, localizada na Avenida Tereza Cristina, em frente à vila de mesmo nome. O esquema é colaborativo: comunidade e artistas se envolvem ativamente para fazer acontecer o rap em dois sábados do mês e o sarau das terças-feiras. Alguns levam os instrumentos, outros acertam o som e todos ajudam a manter a limpeza do espaço compartilhado.

“Decidimos fazer na Praça porque esse é o point de encontro da galera do rock, do rap, do skate”, conta Belinha. Para a MC e poeta, os encontros são fundamentais. Mais que reunir apenas os vizinhos do Barreiro, o grupo se interessa pelo intercâmbio poético e geográfico. “A gente procura visitar a galera dos outros saraus e convida todo mundo para vir também prestigiar o nosso”, conta. As atividades são organizadas de forma que as agendas não se atropelem e que os interessados possam transitar pelos vários encontros de literatura e música. “Antes, para ir no rap tinha que ir pro centro. Agora, a galera vem pro Barreiro também – é um sonho”, afirma.