2015 | 03

Esbaldar-si, relato de uma espectadora

Débora Fantini

O texto Esbaldar-si é uma escrita a partir de duas criações teatrais: a peça Quando eu vim para um Belo Horizonte, d'O Teatro Entre Elas, e o número Chutando o balde, das participantes da Oficina de Memória – Jogos de Afeto.

Quando eu vim para um Belo Horizonte é encenada por atrizes moradoras do Morro do Papagaio [!], com dramaturgia construída a partir de suas histórias de vida. O espetáculo, que estreou em 2014, começou como uma oficina de teatro realizada desde 2011 pela Casa do Beco [!]. As primeiras cenas foram criadas em improvisações e brincadeiras a partir dos conflitos pessoais das participantes, buscando encontrar soluções para problemas e enxergar o lado alegre da vida. Das apresentações em caráter de demonstração, surgiu o desejo de montar um espetáculo. A montagem tem roteiro e direção de Nil César, coordenador geral da Casa do Beco, cenário e figurino confeccionados com a participação das artistas e trilha sonora que inclui canções das Meninas de Sinhá – duas artistas do grupo do Alto Vera Cruz, na região leste, fazem parte do elenco. As apresentações que presenciei se deram durante um ensaio e, em seguida, no evento em celebração aos vinte anos do Grupo do Beco em sua sede, tendo como abertura uma leitura dramática do livro Quero minha mãe, de Adélia Prado, realizada pela atriz carioca Zezé Polessa. No momento, O Teatro Entre Elas dedica-se a um segundo espetáculo, com o tema ser mãe na favela, proposto pelas artistas. Como parte do processo, elas estão participando de oficinas audiovisuais para filmarem entrevistas e cenas em suas casas e na vizinhança, a serem usadas na pesquisa para a montagem.

[!] O Morro do Papagaio ou Aglomerado Santa Lúcia, na região centro-sul de Belo Horizonte, é formado por cinco comunidades: Barragem Santa Lúcia, Vila Estrela, Vila Santa Rita de Cássia, Vila Esperança e Vila São Bento. As pipas inspiraram o primeiro nome, que na década de 1980 seria associado à criminalidade e à violência urbana pela população externa à favela, o que levou os moradores a substituírem-no por Aglomerado Santa Lúcia. Nos anos 2000, artistas e universitários locais começam a resgatar o antigo nome, que adoto aqui, conforme o título do livro Morro do Papagaio, de Márcia Cruz, onde se encontram essas informações.
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A Casa do Beco está localizada à avenida Artur Bernandes, 3.876, aos pés do Morro do Papagaio, desde 2003. Surgiu como sede do Grupo do Beco, que desde 1995 atua social e artisticamente com foco na pesquisa do cotidiano do morador da favela, buscando retratar em suas atividades a realidade dessas pessoas e colocando em debate estereótipos de violência e estigmas da miséria. Além do trabalho com O Teatro Entre Elas, realiza oficinas teatrais para crianças e adolescentes e aulas de capoeira. Também sedia e oferece apoio para apresentações de outros artistas e companhias, no próprio imóvel e em ruas e praças da comunidade. 

Na performance Chutando o balde, cada participante expressa sua indignação em relação ao tratamento que o idoso recebe da sociedade e, em seguida à sua fala, realiza a ação que dá nome ao número, criado pelas próprias integrantes da Oficina de Memórias – Jogos de Afeto, mulheres com idades entre 40 e 90 anos, moradoras da Vila São Jorge, no Morro das Pedras, região oeste da capital. A oficina é uma atividade do Programa de Amparo à Pessoa Idosa [!], realizada desde 2014. Nela, é trabalhada a relação com o espaço, com o outro e com pequenos objetos, em atividades de consciência corporal, jogos teatrais e improvisação, inspiradas pelos lembranças das participantes e por provérbios e canções da cultura brasileira popular e erudita – exercícios dos quais participei durante os três encontros aos quais estive presente. Chutando o balde é precedido por um número de butô, em que as performers vivenciam o ciclo de vida de uma flor, e seguido de um número musical, em que cantam Cabecinha no ombro [!], acompanhadas ao violão pelo professor Leandro Silva Acácio. A apresentação a que assisti foi realizada na abertura de um Fórum Regional do Idoso para debater a violência no trânsito, com a presença de outros grupos de idosos, representantes da prefeitura e da BHTrans (Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte). O evento foi realizado em um auditório na sede do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), no bairro Nova Granada.

[!] Realizado pela Caritas da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro Santo Agostinho, e Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no bairro Nova Granada, em parceria com o Galpão Cine Horto/Instituto Unimed BH.
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O rasqueado Cabecinha no ombro tem letra e música de Paulo Borges e seu lançamento data de 1958, segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Foi gravado por duplas como Cascatinha e Inhana, Ângela Maria e Agnaldo Timóteo.

“Mas como dar ao trabalho doméstico uma atividade criadora?”. Essa pergunta me atravessa desde antes de eu a ter lido assim, como colocada por Gaston Bachelard [!], levando-me a questionar o mesmo em relação a quem realiza tal trabalho: a trabalhadora doméstica, a dona de casa. Esse questionamento ganha sentido – afirmativo, até mesmo exclamativo – no meu encontro com essas forças que são Chutando o balde e Quando eu vim para um Belo Horizonte.

[!] Gaston Bachelard é um filósofo e poeta francês. As citações a que me refiro neste texto encontram-se em seu livro A Poética do Espaço.

No número das participantes da Oficina de Memórias – Jogos de Afeto e na peça d’O Teatro Entre Elas, o trabalho doméstico e quem o realiza não estão representados. As cenas performáticas são a presença dessas artistas. Mulheres, donas de casa, moradoras de favela, idosas, avós, mães, esposas, negras, pessoas com deficiência, cada uma com sua singularidade, elas investem seus corpos e suas experiências no ato teatral e, ainda que este não seja a vida cotidiana delas, ambos compartilham uma potência de criação liberada entre vida e arte.

Diante da privação de seu direito – dentre tantos outros – ao abastecimento de água potável, presenciar as duas criações teatrais me leva a imaginar essas mulheres fazendo o papel que deveria ter sido executado por adutoras, bombas hidráulicas e tubulações. São ninfas, seres de água. Atlânticas carregadoras do peso cotidiano, de cabeça erguida. Titânidas a enfrentar e vencer, com a potência estranha dos próprios corpos – social e economicamente fragilizados –, os poderes mortíferos do capital e de seu sistema de exclusão e controle.

Não só a água ingerida, banhada, como também a lata e seu equivalente balde são o corpo dessas mulheres, corpo sem órgãos, irredutível a qualquer organização institucional, seja ela anatômica, cultural, econômica ou social, corpo capaz de expandir-se para criar novas realidades necessárias ao fazer-se viver. Esses utensílios domésticos são objetos de um sagrado imanente e, assim sendo, transitam com elas da casa à cena, onde se manifestam estética, estesicamente.

Do topo da cabeça até a ponta dos pés, a lata d’água desliza e, já como balde, é chutada. Mesmo no pontapé mais vigoroso contra o balde, assim como na amorosa presença em cena das latas, enfeitadas com chita ou fuxicos e carregadas no colo, o que se vê não é uma recusa a esses objetos, e sim uma aliança com eles. A cada chute, o balde é colocado de volta na boca de cena, para ser sucessivamente chutado, na repetição sempre diferente, em ondas, desse gesto. Generoso gesto, aliás, que “aumenta a dignidade humana desses objetos” [!] e não os recalca em detrimento de mercadorias, de fetiches, tal como essas mulheres não escondem a própria história nem tampouco a si mesmas. Pelo contrário, em Quando eu vim para um Belo Horizonte, mostram fotografias de seus casamentos, famílias e casas; já o número Chutando o balde é composto por depoimentos em primeira pessoa, que transitam entre o autobiográfico e o confessional. Nessas fotos e falas, em seus corpos, em sua presença, expõem-si para a plateia e, em comunhão com ela, no ritual da cena, afirmam sua dignidade.

[!] Palavras de Bachelard.

A expansão do significante alcança a palavra. As vozes, em seu linguajar, sua prosódia próprios, fogem do texto artificial decorado, não se moldam à gramática normativa, expandem a plasticidade da língua viva. Essas mulheres, algumas delas vivenciando agora o processo de aprender a ler e a escrever, oferecem lições de poesia. Ao ouvir o bordão de novela [!] repetido por Lina Silva, 55 anos, na peça, imagino uma telespectadora de enlatados se levantar do sofá para fazer teatro, trocando uma distração passiva por uma ativa diversão – ainda um recrear-se, mas também um desviar a atenção, um fazer mudar de pensamento, outras acepções do verbo divertir.

[!] A frase é “Eu sou chique, benhê”, dita, com um sotaque caipira, por Márcia, uma dona de salão de beleza com acento cômico interpretada pela atriz Drica Moraes em Chocolate com pimenta, novela das seis da Rede Globo, exibida pela primeira vez entre setembro de 2003 e maio de 2004. 

Da plateia, observo-as entregues ao máximo a um divertimento: esbaldam-si. O balde do trabalho doméstico é o mesmo da brincadeira, negada a essas mulheres em suas infâncias dedicadas ao trabalho da casa. Agora, o jogo teatral é um brincar nada nostálgico no qual o riso transborda. A comicidade na peça é uma extensão do bom humor marcante nos bastidores, quando as atrizes contam casos engraçados e piadas, tanto nos intervalos do ensaio quanto no aquecimento para a apresentação. No número, expressa o triunfo das performers ao bater esse metafórico pênalti que sempre é gol e a empolgação despertada na plateia.

Nas apresentações há também transbordamento de lágrimas, verbalizado nos versos da música Cabecinha no ombro: “Encosta tua cabecinha no meu ombroe chora. Choro que ocorre já durante a apresentação de Quando eu vim para um Belo Horizonte. É um choro sem nome, não é representação de sentimento. Água que brota de mim, espanto-me, imersa nos eflúvios que emanam dessas ninfas. Devir aquoso, com seus fluxos inescapavelmente plásticos até quando contidos em latas ou baldes, ondeantes ao balanço do caminhar de uma mulher que carrega uma lata d’água, na cabeça ou no colo. Devir o necessário, o possível para existir.

Rugas, linhas de fuga

A existência da velhice – recalcada na economia de carência de uma sociedade que não vê essa fase da vida em si, mas em oposição a um modelo de juventude, como falta desta – vem à tona. Rugas são linhas de fuga que traçam territórios corporais para além dos padrões de beleza, libido, velocidade, vitalidade, força. No limite das impotências de seus corpos, com as fragilidades das quais se constituem, as artistas afirmam uma força vital de outra ordem, estranha potência, superior àquela dos músculos malhados. Vetores desenham curvas, dobras, corcundas, a imagem viva do camelo de Zaratustra [!]:

“Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o forte, resistente espírito em que habita a reverência: sua força requer o pesado, o mais pesado.

O que é o mais pesado? Assim pergunta o espírito resistente, e se ajoelha, como um camelo, e quer ser bem carregado.

O que é o mais pesado, ó heróis?, pergunta o espírito resistente, para que eu o tome sobre mim e me alegre de minha força.”

[!] Personagem de Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém, que narra, em linguagem poética e musical, andanças, discursos e encontros desse profeta. De autoria do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, a obra foi escrita e publicada entre 1883 e 1885. A tradução aqui apresentada é a de Paulo César de Souza, em edição da Companhia das Letras, datada de 2011.

Alegres de sua força, achando-se fortes para os objetivos que têm, assim é que vejo atuar Geralda Santana, 71 anos, e Conceição do Espírito Santo, 89, as mais idosas em cena, na peça e no número, respectivamente. Assim como suas colegas, atuam com muito esforço, força magnética à qual fico presa, ferro no ímã, em contemplação. Habito seus tempos, experimento sensações, desterritorializo-me.

Até o simples caminhar em cena dessas mulheres dança – e não apenas o número de butô das participantes da Oficina de Memórias ou a cena do baile na peça d’O Teatro Entre Elas. No cíclico levantar, caminhar até o balde, chutá-lo, caminhar de volta até a cadeira, sentar-se, reencontro Umwelt, espetáculo da companhia francesa Maguy Marin [!].

[!] Nesta coreografia, presenciada por mim no Palácio das Artes, em 2008, durante o Fórum Internacional de Dança (FID), dançarinas e dançarinos entram e saem de cena continuamente, através de aberturas que remetem a portas, dispostas em uma fila posicionada horizontalmente em relação ao proscênio e à plateia. A cada passagem, realizam ações e gestos, às vezes remetendo a atos cotidianos, sempre desenhando com o deslocamento dos corpos um círculo imaginário no espaço à frente de cada porta.

Gestos e movimentos banalizados ganham expressividade. Livres de falsos movimentos, de automatismos, os corpos sem órgãos dançam do avesso e encontram nesse avesso seu verdadeiro lugar, como proclama o poeta francês Antonin Artaud [!]. Ou, como escreveu Bachelard, em seguida à pergunta que abre este texto: “No momento em que acrescentamos um clarão de consciência ao gesto maquinal, no momento em que fazemos fenomenologia esfregando um velho móvel, sentimos nascerem, sob o terno hábito doméstico, impressões novas. [...] Como é maravilhoso voltarmos a ser realmente o autor do ato maquinal!”.

[!] Antonin Artaud, na transmissão radiofônica Pour en finir avec le jugement de dieu (Para acabar com o juízo de deus, em tradução livre), gravada em novembro de 1947.

“Maravilhoso”, fora do comum, que trabalhadoras domésticas apareçam como uma força criativa em cena, no Brasil onde esse trabalho forma-se com base no escravismo da população feminina negra por uma elite patriarcal branca e somente agora, mais de 125 anos após o fim daquele regime de exploração de mão de obra como propriedade, passa a ser uma profissão regulamentada por legislação própria, ainda distante de arraigadas práticas abusivas, perversas, misóginas e racistas. Diante dessa realidade, este texto não pretende idealizar tal atividade nem as relações em torno dela, mas afirmar o verdadeiro lugar, avesso do estigma, de quem a realiza com a “capacidade dos excluídos de construírem territórios subjetivos a partir da própria desterritorialização a que são submetidos, ou dos territórios da miséria”, como escreveu o filósofo húngaro-brasileiro Peter Pál Pelbart [!].

[!] Trecho do texto Exclusão e biopotência no coração do Império

Cheias de si, as artistas d’O Teatro Entre Elas e da Oficina de Memórias dão seu jeito de suprir as faltas do excesso capitalista. Em cena, bagunçam estereótipos de dona de casa, moradora de favela, negra, idosa, pessoa com deficiência, mãe, avó, mulher. Desorganizam o próprio fazer e fruir teatral. Metamorfose, é isso uma ninfa, sua potência de mudança.