2016 | 04

EDITORIAL

Quando tivemos a ideia de fazer uma edição de Marimbondo trazendo o congado [!], logo compreendemos que mais importante do que tomá-lo como tema da revista seria abrir espaço para seus relatos. Somado a esse desejo, começamos a produzir esta publicação com o desafio de um prazo exíguo e cientes de que o tempo do Rosário caminha em compassos incompatíveis com a burocracia das leis de incentivo. Para conceber esta revista em menos de seis meses, precisávamos contar com aqueles e aquelas com quem temos uma relação mútua de intimidade e de confiança.

[!] O congado se constitui a partir da narrativa mítica que relata a aparição e resgate da imagem de Nossa Senhora do Rosário pelos negros escravizados das águas e é em torno da devoção à santa, aos demais santos do panteão congadeiro e aos antepassados que se organizam seus ritos. De acordo com Glaura Lucas, em Os Sons do Rosário: “(...) em Minas Gerais, hoje, Congo refere-se a um dos grupos, ou guardas, de devoção a Nossa Senhora do Rosário e outros santos. Candombe, Moçambique, Vilão, Marujos, Catopês e Caboclos são outras guardas que festejam o rosário de Maria nesse Estado. Em Belo Horizonte, Congado tornou-se a festa religiosa de que participam as guardas acima (...)”.

A relação da Canal C com a Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e Sagrado Coração de Jesus — Irmandade Os Carolinos teve início em 2012, quando participamos das filmagens de Os Carolinos, vídeo que acompanha uma viagem da guarda à festa de São Benedito em Aparecida do Norte (SP). De lá pra cá, participamos de outros projetos ligados ao universo do congado, como o Festejo do Tambor Mineiro e o livro Percursos do Sagrado: Irmandades do Rosário de Belo Horizonte e Entorno, e os laços estreitaram-se. São três anos de histórias compartilhadas e de várias entrevistas com integrantes da Irmandade, a terceira mais antiga de Belo Horizonte ainda em atividade. A escolha de fazer uma edição especial de Marimbondo com relatos d’Os Carolinos foi, portanto, providencial e afetiva.

Capitãs, capitães, rainhas, reis e dançantes generosamente nos permitiram que adentrássemos esse universo e nos ajudaram a nos aproximar de um cotidiano marcado por experiências complexas de ancestralidade e de fé. Os Carolinos nos receberam e nos guiaram por suas práticas banto-católicas, levando-nos para o centro da festa-grande, momento ápice da vivência do sagrado e do ciclo anual dos rituais. Nos próximos, compartilharemos relatos, descobertas e fragmentos de uma história oral, sem a pretensão de uma mirada historiográfica ou de uma perspectiva conclusiva acerca da trajetória da Irmandade.

Nessa narrativa, fomos acompanhadas pelo antropólogo e fotógrafo Patrick Arley, que registrou todos os rituais dos festejos de outubro de 2015 e realizou um ensaio com a capitã e atual presidenta Neide de Assis Silva. Integrantes d’Os Carolinos aprovaram o conteúdo final desta Marimbondo [!].

[!] Contamos também com o olhar atento da pesquisadora em Antropologia e integrante da Guarda de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário, Junia Torres, convidada como consultora para a revisão do texto no que tange aos termos e menções relativos ao universo do congado/reinado.

Para evitar que tropeçássemos em nossa própria ignorância sobre o tema, buscamos explicações das expressões, dos símbolos e das funções dos rituais e do vocabulário congadeiro em livros, pesquisas e entrevistas com integrantes de guardas. No trajeto de escrita desta Marimbondo, a leitura de Afrografias da Memória, de Leda Martins (1997), e Os Sons do Rosário: o Congado Mineiro dos Arturos e Jatobá, de Glaura Lucas (2014), tiveram especial importância. Ao longo da publicação, utilizamos o termo congado por ser aquele com o qual a própria guarda se identifica. O termo reinado é também referencial para a autodenominação de muitos dos grupos que perpetuam essa tradição e igualmente se refere a um complexo sistema de organização entre as heterogêneas manifestações que o compõem, atualizando uma cosmologia própria dos congados ou reinados.


Depois de passar pelos temas Rua, Música e Teatro, e sem nunca perder de vista Belo Horizonte como objeto de seu exercício jornalístico, Marimbondo chega à sua quarta edição pedindo licença e a bênção de Undamba Berê Berê, a Senhora do Rosário.

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS
A todos os integrantes da Irmandade Os Carolinos, Elias Gibran, Junia Torres, Mariana Misk e Viviane Maroca