2016 | 04

No tempo do Rosário

Júlia Moysés

Os Carolinos narram sua história no limite borrado e entrecruzado do fato e da recriação. Capitãs, capitães, rainhas, reis e dançantes buscam na memória momentos não vividos senão pelas narrativas e gestos de seus antepassados. Preenchem lacunas com eventos sonhados — mas jamais inverídicos — e deixam, sem sofrimento, espaços vazios. Desafiam a exigência das datas e da linearidade cronológica. Para eles e elas, história é algo impossível de se concretizar em linhas do tempo sem antes se dar pela sucessão de nomes. Assim, os Carolinos não se fundam no dia tal, do ano tal, e sim em Chico Calu. Se fundam em Francisco, seguem em Luiz e essa é a origem e a explicação de toda a existência, desvelada pelo desenrolar de descendentes.

Esta é uma narrativa atravessada pelo cotidiano da cidade — pelo trabalho, pela mobilidade, pelo saneamento e pela moradia — que quase sempre interpõe-se, aqui, como obstáculo para a prática da fé. A cidade também é território de construção de uma identidade própria que se mistura com a identidade da Irmandade. Os Carolinos são do Aparecida e vieram do Retiro, fazem questão de enfatizar.

Trata-se também de uma história e de identidades construídas e reconstruídas, sempre em aberto, a partir de múltiplas vozes a tecerem relembramentos que se complementam, ora em harmonia, ora em contradição. Na narrativa polifônica dos Carolinos, antes do Retiro, o que existia era África, e antes de Chico Calu, Nossa Senhora do Rosário, a ancestral maior.

Foi no tempo do cativeiro
Quando o senhor me batia
Foi no tempo do cativeiro
Quanto o senhor me batia
Eu gritava por Nossa Senhora, meu Deus
Quando a pancada doía
Eu gritava por Nossa Senhora, meu Deus
Quando a pancada doía