2016 | 05

Ao leitor, com carinho

Em janeiro de 2012, marcamos encontro no Teatro Espanca para lançar a edição de estreia de Marimbondo, com convite aberto a quaisquer pessoas interessadas. Muita gente apareceu e fez da distribuição da revista também um momento de celebração junto à vida na Aarão Reis. Filipe não esteve presente – ele solicitou um exemplar pelos Correios (à época, distribuímos gratuitamente mais de 800 unidades dessa forma).

Pouco tempo depois, recebemos uma ligação dele no escritório onde trabalhávamos. Filipe se apresentou como “leitor de Marimbondo”, possivelmente a primeira pessoa que estabeleceu esse tipo de interlocução conosco. De prosa fácil, compartilhou impressões sobre as matérias, os personagens e as escolhas editoriais daquela edição. Falou também sobre a sua Lagoinha, que “merecia uma Marimbondo só dela”.

Quatro anos depois, nossa edição #5 começou a ser construída. Tema Lagoinha, “uma Marimbondo só dela”, fruto de um desejo antigo de lançar um olhar – e abrir os ouvidos! – para esse complexo. O texto que se segue é a escrita de Filipe que, em uma espécie de diário de bordo, registra os percursos em busca da sua Lagoinha. É também um pouco do nosso desejo de escuta.

Eu só quero morar num lugar legal

por Filipe Thales       

Eu havia me mudado há dois dias para o bairro, recém-juntado com minha companheira. Vida nova, uma nova morada. Da minha janela, que dava para Rua Itapecerica, me lembro de ouvir: “atenção moradores, a UniBH convida você e sua família para a estreia do filme Lagoinha”. Ao abrir a janela, me deparo com um Fusca 78 com uma caixa de som velha. Atordoado, me pergunto: ‘onde eu tô, gente?’       

Era agosto de 2008. Ao chegar à instituição, localizada do outro lado da Antônio Carlos, encontrei a recepção calorosa da anfitriã Dona Juracy, que recebia a todos com a frase: “seja bem-vindo à Lagoinha antiga”. Fiquei impressionado com tanta gente – na maioria idosa –, e busquei um canto para me sentar e observar. Mergulhei de cabeça no enredo e, entre uma cena e outra, começava a acreditar que havia encontrado meu lugar. Pensei estar na Lapa [ ! ] de Belo Horizonte, com todas suas contradições, alegrias e tristezas. Naquele momento eu só tinha uma coisa em mente: tomar a bênção daquelas senhoras e senhores e conhecer a história do bairro através de suas vivências.       

[ ! ] A Lapa é um bairro localizado na Zona Central da capital fluminense, muito conhecido por sua arquitetura e cultura boêmia.

Naquela época, eu era um dos organizadores do Duelo de MCs que rolava debaixo do Viaduto Santa Tereza. Todo final de tarde de sexta-feira, minha casa ficava frenética, cabos para lá e para cá. Isso porque a sonorização do Duelo era guardada lá, justamente por ser o local mais próximo do Centro. Aquela movimentação toda de ocupação de um espaço público me motivou a voltar os olhos para minha própria comunidade.

Nisso, a Nega Laura, uma das clientes do salão de beleza da minha companheira, me falou sobre a Pedreira Prado Lopes, bairro ao lado, e me apresentou seu marido, Robson Bigode, o fundador do Jornal Fala Pedreira. Ao conhecer mais a comunidade, pude perceber também que lá era bem diferente daquilo que a mídia sempre expunha. A Pedreira, há muito, estava em paz e passava por um profundo processo de urbanização, não à toa a principal pauta das últimas edições do jornal. Tornei-me colaborador da publicação e ajudei na produção de um documentário sobre nossa luta. Alguns meses depois, o “Fala Pedreira – o filme do jornal”, dirigido pelo jornalista e cineasta André Portugal – o Dedé –, estreava na comunidade, lá na Casa da Piscina [ ! ], completamente lotada e com direito a sessão comentada. Na semana seguinte, o filme foi exibido no Cine Belas Artes, no bairro de Lourdes, e conseguimos levar nosso povo para se ver na telona. A maioria nunca tinha ido a um cinema. Foi emocionante, e até hoje esse acontecimento é comentado na comunidade.

[ ! ] A Casa da Piscina – que hoje leva o nome de Casa da Família – Centro Cultural e Entretenimento – fica no bairro Santo André e é uma das poucas casas de show da região. Aberta em 1998, abriga diferentes ritmos musicais, com destaque para as noites de samba de domingo.

A partir desse momento, entrei em outra linha de pensamento. ‘Assim como as pedras de Belo Horizonte foram tiradas daqui, daqui vai ecoar o grito pela revitalização da Lagoinha’, eu disse ao professor Bigode. O Jornal Fala Pedreira decidiu descer o morro e ir movimentar o asfalto. Durante todo o processo de pensar como fazer, trocávamos muita ideia sobre como se deu a degradação do bairro. Causava um incômodo muito grande em todos nós como o ambiente se transforma radicalmente após as 18h, quando uma quantidade considerável de usuários de crack toma conta de uma das principais ruas da Lagoinha. Entendi que, se não agíssemos em conjunto e em várias frentes de atuação, tal situação não seria resolvida. A “culpa” de ter muitos usuários nas ruas sempre cai sobre a Pedreira e o Buraco Quente, locais que costumeiramente vendem a droga. Mas fiquei pensando: e o comércio que fecha às 18h na Rua Itapecerica e, depois desse horário, as ruas ficam desertas? E os casarões abandonados? E a falta de vida noturna? Cadê a música? Cadê a boemia de que tanto gostam de falar? E o Mercado Popular da Lagoinha que vive fechado? Como tudo isso não se mistura, num ciclo perverso em que quanto mais não se sai de casa, mais existe abandono, quanto mais existe abandono, menos se sai?

Desde que a Lagoinha se tornou para mim um sonho de viver bem, já me mudei daqui três vezes e cá estou de volta. Nesse meu retorno mais recente, senti como se tivéssemos voltado à estaca zero nesta caminhada. Os desafios permanecem. Ao mesmo tempo, entendo que falta ainda uma tentativa que, por sinal, é a que mais acredito: nós por nós! Acredito ser possível ela se tornar realidade através da ocupação dos espaços – públicos ou privados, abandonados ou não – pelas pessoas, com as pessoas, com música, cinema, teatro, cerveja gelada, namoro na rua, sorvete, comida gostosa. Continuo aqui, à disposição. Desde que comecei nessa história, sigo com o mesmo desejo de morar num lugar legal.

Há braços. Te encontro na Lagoinha.