2016 | 05

O avantesma da Lagoinha

Heloísa Starling

Trecho do texto “Fantasmas”, de Heloísa Starling, publicado originalmente no Guia do Morador de Belo Horizonte (Editora Piseagrama, Belo Horizonte, 2013), publicação que reúne narrativas da cidade cotidiana que “revelam pequenas histórias, práticas e modos de vida para muito além do que nos contam os guias turísticos”.

Em Belo Horizonte, os fantasmas só se manifestam depois que o sol se põe e a noite em volta da cidade e dentro de cada morador suspende as horas. Durante a noite, alguns deles costumam escrutinar as sombras em busca do que possa indicar o vazio de uma perda, a solidão de uma ausência e, sobretudo, o abandono de um lugar. É isso que ainda costuma fazer, por vezes, o avantesma do bairro da Lagoinha, também ele um senhor todo de preto [ ! ], mas sem qualquer traço de rosto ou feição. Ao contrário de seu similar da Serra, o avantesma da Lagoinha é uma aparição disforme, excêntrica, cruel, que exala vago cheiro de enxofre e chora um choro convulsivo. Em seguida, conta Carlos Drummond de Andrade,

                dissolve-se qual sonho

que não quer ser sonhado.

[ ! ] Referência ao fantasma do bairro da Serra, cavalheiro de terno preto e guarda-chuva que, segundo Heloísa Starling, “se manifesta principalmente para deixar surgir a lembrança do traço difuso dos funcionários públicos anônimos, egressos da Ouro Preto destronada”.

Antigamente, o avantesma da Lagoinha costumava espantar motorneiros, sentando-se, imóvel, entre os trilhos do bonde, em calmo desafio aos moradores do bairro, talvez porque lhe parecesse necessário revelar os rastros e a presença de uma gente submetida, por muito tempo, ao princípio de segregação física e espacial que orientou o projeto original de construção da nova capital. Nesse caso, é possível que ele tenha razão: como a Serra, o bairro da Lagoinha serviu de primeiro refúgio para boa parte da população pobre de Belo Horizonte construir suas cafuas e barracos, indicando, já por volta de 1912, que a expansão urbana vinha desenvolvendo-se da periferia para o centro, ao contrário do pretendido pela Comissão Construtora. Mas a Lagoinha, diferente da Serra, sempre foi também o lugar do jogo, da prostituição, da boemia, a margem que separava a cidade modernista de sua gente insalubre e extraviada – a margem onde a polícia sempre se fez presente para expressar o sentido de exclusão, carência, controle e repressão social que a modernidade costuma assumir nos lugares de subúrbio.

Hoje em dia, porém, a face mais visível do bairro foi inteiramente demolida e o que sobrou vem sendo sugado pelo complexo de viadutos que se esparrama em direção à Pampulha. O cheiro, os mendigos, as ondas de lixo quebrando pelas ruas, os prédios sucateados, as casas deterioradas indicam a urdidura da história dos moradores. Provavelmente por essa razão, nas madrugadas, de lua cheia, o avantesma da Lagoinha talvez ainda se pendure pelas bordas dos viadutos, assustando os motoristas dos muitos ônibus que trafegam pelas ruas. Uma iluminação repentina, destacada, isolada, ligeiramente patética em seu choro convulsivo, balançando como efeito de luz no volume das sombras dos tapumes e da infinidade de placas, para contemplar, sarcástica, a marca do avesso desse urbano que mergulha nos subúrbios da modernidade.