2016 | 05

Ali na Turvo tem um beco

Rafael Mendonça

Fazia calor e aquela sensação de abafamento característica do centro da cidade, com seus prédios arranhando o céu e excesso de concreto. Mas as coisas são ainda mais duras do lado de lá do Arrudas, que atravessei para adentrar a Lagoinha. Estava atrás de histórias desse bairro cantado para escrever aqui; resolvi caminhar e me permitir ouvir as histórias que suas ruas e praças iriam escolher contar naquele dia.

Terminava de descer a passarela que, da rodoviária, leva para o espaço onde costumava ser a Praça Vaz de Melo – ou Praça Coronel Guilherme Vaz de Melo, seu nome completo – implodida em 1981 para dar lugar ao Complexo Viário da Lagoinha. Para nós, que chegamos depois de Gervásio e Milton Rodrigues Horta cantarem seu fim, é até difícil entender, geográfica e simbolicamente, a vastidão que era o lugar que deixou sem abrigo o coração dos sambistas. Ocupava um quarteirão entre a ferrovia e a Avenida Antônio Carlos, um espaço quase tão grande quanto aquele que ocupa hoje, na memória, a boemia idealizada e povoada por personagens reais e imaginados desse passado que se faz presente.

Assim que coloquei meus pés na área em que rolava a fuzarca, segui em direção à Rua Itapecerica, onde continuaria até a Rua Turvo e subiria a Além Paraíba. Mas ali na Turvo tem um beco e, nesse beco, encontrei um senhor que amolava facas e cantava pregões. Era um daqueles tradicionais que quase não se veem mais. Conversa vai, conversa vem, já chamava o senhor por seu apelido,  Pipo.

Ele sacou uma garrafa e dois copinhos de madeira. Quando dei por mim, me vi tomando o bruto líquido de um dos copos em uma só talagada. Um calafrio percorreu minha espinha de cima a baixo, e a luz do fim de tarde me trouxe um embaço de lusco-fusco. Um lapso temporal.

Fechei os olhos e deixei que descesse queimando o seu caminho corpo adentro. Me agachei por um momento para deixar passar a azia da cana e, ao me levantar, me vi sob o olhar de um rosto de linhas familiares. Mirava no fundo dos meus olhos e, sem cerimônia, se apresentou como Cintura Fina. Disse que não a desafiasse, pois de valentia e de resolver problemas sabia tudo. 

Era uma noite quente e agitada naquele que é tido como um dos mais tradicionais redutos da boemia de Beagá. Era, mas também não era. Pensei comigo: “que alucinação mais chumbrega, tá parecendo Um Conto de Natal, do Charles Dickens”, o que Cintura – figura das mais respeitadas da Lagoinha, travesti coroada Rei da Navalha –  já rebateu de primeira:

– Deixa de divagar e vamos descer, que agora já é dia.

Ali na Itapecerica, um grupo de pessoas se reunia. O suor grudava no corpo e o cheiro da banha de porco que fritava as pururucas era sentido de longe. Era verão, e o sol queimava naquele carnaval da década de 1950. Dali a alguns instantes, sairia, pela primeira vez, o bloco Leões da Lagoinha. Achei estranha a preponderância de homens na rua, mas Cintura me explicou que, nos primeiros anos, eram pouquíssimas as mulheres que saíam com o bloco, composto principalmente por foliões que trajavam roupas femininas. Fruto do machismo e das brigas, o que não colaborava, é verdade. “Nessa época, o bicho pegava”, afirmou Cintura com uma risada, mostrando a navalha no sutiã.

Passando pelos brincantes que curtiam a folia, Cintura me levou para dar um pulinho logo ali em frente, na Pedreira Prado Lopes, no ano de 1936, para ver nascer a primeira Escola de Samba da cidade, a “Pedreira Unida” fundada por Popó e Chuchu – Mário Januário da Silva e José Dionísio de Oliveira. Da escola, que saiu às ruas em 1937, descendem tantas outras que serviram como berço para os “baluartes” do samba da capital – Ronaldo Coisa Nossa, Mestre Conga, Sílvio Luciano, Jadir Ambrósio e tantos outros cujos nomes e melodias seguem sendo entoadas nas rodas.

Deixando aquela que já foi cantada como “nossa querida Mangueira”, dobramos uma esquina, e o sol se pôs. Eu estava de volta à antiga Praça Vaz de Melo e, apesar de ser uma noite fria de maio, pessoas zanzavam para cima e para baixo entre ruas e bares. Era sexta-feira, e o lugar fervia: dos cabarés que tocavam boleros na vitrola até os mais requintados (que conseguiam bancar um local), todos estavam lotados.

Cintura sacava a movimentação pulsante e não deixava de observar: a Lagoinha era a diversão dos pobres.  A turma mais abastada, tirando os descolados, ficava do lado de lá do rio Arrudas. Dizem até que talvez não existisse ali uma “cena musical”; existia a Praça, existiam os cabarés, existia o carnaval. E, em todos esses espaços, percorrendo e amarrando as experiências compartilhadas, existia a música.

A música estava até nos clubes de futebol – como o Fluminense, o Terrestre e o Brasil. O gingado mostrado nas quadras aparecia também nos bailes de carnaval realizados em suas sedes. Cintura Fina me disse: “A música na Lagoinha é o meio.  É aqui que a gente extravasa o peso do dia a dia, é onde o trabalhador, o braço da cidade, vem relaxar.  A música é a forma de a gente jogar pra cima as angústias”.

Saímos da rua Bonfim e, sobe morro, desce morro, entramos na Serro, ali onde passavam os bondes que levavam a turma que morava mais ao norte. Viramos na esquina da Além Paraíba e de novo na Jequeri, e seguimos, sempre morro abaixo, para chegar na Rua Itapecerica. Foi por lá que Cintura encontrou com Maria Tomba Homem e dois sujeitos mal encarados que tentaram extorquir as duas. Eu, que não sei de briga, tomei logo um murro no nariz.

Acordei e dei de cara com Pipo, que me encarava como a personagem de meu sonho febril. Também de papo reto, o amolador proseava entre uma canção cantarolada e outra, sobre a Lagoinha que tenta dialogar com seu passado.

A memória de Cintura Fina me levou para outro passeio pelo bairro, em um carnaval bem mais recente, o de 2016. Foi neste ano que, pela primeira vez, saiu às ruas o bloco carnavalesco Cintura Fina, que fez questão de homenagear os Leões da Lagoinha. Partindo da Praça do Peixe, subimos, brincantes, moradores e visitantes, a Rua do Bonfim – dessa vez, vale notar, eram as mulheres que estavam à frente.